A vidente

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— Vejo alguém novo em sua vida — dis­se mãe Elza de Ashi­ra (que não era mãe de gen­te nem de san­to; que na ver­da­de se cha­ma­va Cleu­za e muda­ra o nome, tiran­do-lhe algu­mas letras e tro­can­do outras de lugar por ques­tões de eufo­nia e mar­ke­ting pes­so­al; e que toma­ra para si “Ashi­ra” de um encon­tra­do ao aca­so dici­o­ná­rio de nomes judai­cos para ocu­par o lugar de “Ara­gão”, seu últi­mo nome, o qual melhor cabe­ria a um homem, a um velho, ima­gi­na­va, gor­do e bar­bu­do — mas ago­ra, sim, “Ashi­ra: rica, abas­ta­da, afor­tu­na­da, endi­nhei­ra­da”, tal como cons­ta­va no alto de uma das pági­nas ini­ci­ais do mal-chei­ro­so livre­to embo­lo­ra­do à ven­da qua­se de gra­ça entre anti­gos best-sel­lers na loja de rou­pas e coi­sas usa­das ao lado da pas­te­la­ria da Joa­na, um bagun­ça­do bre­chó onde per­dia a noção do tem­po reme­xen­do ves­ti­dos aos mon­tes e bus­can­do reta­lhos de teci­dos bri­lhan­tes para seus tur­ban­tes em ces­tos, além de cavou­car até o fun­do o con­teú­do de cai­xas de pape­lão à pro­cu­ra de cor­ren­tes, redes, pen­du­ri­ca­lhos, anéis pin­ta­dos de dou­ra­do e bro­ches de ame­tis­ta de resi­na plás­ti­ca).

— Alguém novo… — dis­se a cli­en­te, real­çan­do com silên­cio a lan­gui­dez e as reti­cên­ci­as, bai­xan­do os olhos úmi­dos como se assim enga­nas­se mãe Elza de Ashi­ra, que podia não saber nada ler nos refle­xos de uma bola de cris­tal, mas deci­fra­va como nin­guém a sin­ta­xe e a semân­ti­ca no bri­lho dos olhos de uma mulher que, lon­ge da ino­cên­cia que ale­ga­va sua voz frá­gil de víti­ma, esta­va enfren­tan­do peri­gos para satis­fa­zer dese­jos bor­bu­lhan­tes como sopa no fogo. Assim, cla­ro, o tal “alguém novo…” era per­so­na­gem já pre­sen­te naque­la clás­si­ca his­tó­ria de adul­té­rio com pro­vá­veis cenas pican­tes de encon­tros tór­ri­dos num ban­co tra­sei­ro de car­ro, num quar­to de hotel de segun­da. A cli­en­te era boni­ta, com pou­co mais de trin­ta anos, cal­cu­la­va mãe Elza, e sua deli­ca­da sen­su­a­li­da­de se podia ima­gi­nar atra­vés da saia insi­nu­an­te e da blu­sa fina, e vice-ver­sa; e quan­do ela, con­tra­ri­a­da, pres­si­o­na­va os lábi­os, o arco de cupi­do de sua boca se cur­va­va com gra­ça e ame­a­ça, as covi­nhas que por ali se arque­a­vam tam­bém. Ter belas mulhe­res como cli­en­tes che­ga­va a irri­tar mãe Elza de Ashi­ra; elas lhe toma­vam o foco enquan­to a visão dos negó­ci­os se emba­ça­va, e a pro­xi­mi­da­de dos cor­pos, a meia-luz, os per­fu­mes só pio­ra­vam tudo.

Mãe Elza se recli­nou na pol­tro­na. Abriu em leque na mesa, a sua fren­te, o bara­lho mar­ca­do, coi­sa com­pra­da em loja de mági­co. Pediu à cli­en­te que dis­ses­se um núme­ro.

— … trin­ta e três.

Com um dedo ergui­do sobre as car­tas, mãe Elza mais uma vez fin­giu sus­sur­rar uma con­ta­gem. Em segui­da, reti­rou uma das car­tas e pou­sou-a, vira­da para cima, ao lado do ás de espa­das que já esta­va no cen­tro da mesa. Após um tan­to de silên­cio, duran­te o qual se mara­vi­lhou com o con­tras­te entre a deli­ca­de­za da moça e a ten­são com que ela mexia na ali­an­ça como se esta fos­se uma por­ca giran­do em fal­so num para­fu­so, dis­se:

— Um vale­te de paus — e jun­tou as mãos como se rogas­se aos orá­cu­los das car­to­man­tes. A cli­en­te tinha os ombros tor­tos e uma sobran­ce­lha ergui­da, uma rea­ção, sabia bem mãe Elza, comum em quem se denun­ci­a­va incons­ci­en­te­men­te em fla­gran­te deli­to. Dian­te de tal con­fis­são invo­lun­tá­ria de cul­pa por cri­me de las­cí­via adúl­te­ra, mãe Elza se auto­con­gra­tu­lou em pen­sa­men­to pela esper­te­za. — Esse alguém novo já está em sua vida… — acres­cen­tou, jun­tan­do nova­men­te as mãos, des­ta vez com os dedos cru­za­dos, os coto­ve­los sobre a mesa, a cabe­ça bai­xa como se lhe pesas­sem os pen­sa­men­tos.

— Ai, mãe Elza. Será que a senho­ra pode me aju­dar? Eu não sei o que fazer. Estou tão per­di­da. — Ela qua­se cho­ra­va, o que dava àque­les olhos cor de mel uma doçu­ra a mais, pen­sou mãe Elza, lem­bran­do-se de uma músi­ca.

— Minha filha, será que pode­mos mes­mo deci­dir ou esco­lher o que vamos fazer nes­ta vida? — dis­se ela com com­pai­xão. Esten­deu as mãos à fren­te, ofe­re­cen­do-as para que a cli­en­te nelas pou­sas­se as suas. Aca­ri­nhou com sua­vi­da­de, sem pres­sa, aque­la pele macia, de mãos que com cer­te­za não conhe­ci­am tra­ba­lho duro, domés­ti­co, que devi­am folhe­ar revis­tas femi­ni­nas e, quem sabe, roman­ces açu­ca­ra­dos que recon­ta­vam a his­tó­ria de como o amor trans­for­ma a vida. Depois, ape­nas para dizer algu­ma coi­sa, men­tiu (pois nun­ca conhe­ce­ra seu pai): — Meu pai dizia que o futu­ro é um sonho, e que acha­mos que no pre­sen­te esta­mos acor­da­dos. Mas, na ver­da­de, pas­sa­mos a vida dor­min­do, meu bem.

— Mas… e as car­tas? O que elas dizem? Eu que­ro parar com tudo mas não con­si­go. E se alguém já sabe de algu­ma coi­sa? — Ela reco­lheu as mãos, esta­va pres­tes a des­mo­ro­nar.

— As car­tas, minha filha, podem nos mos­trar um tiqui­nho das coi­sas, da vida. É como se esti­vés­se­mos em um porão mui­to gran­de e escu­ro. E as car­tas são como um fós­fo­ro. Ele logo apa­ga e ain­da pode quei­mar nos­sos dedos se o segu­ra­mos por tem­po demais, achan­do que pode­re­mos saber, enxer­gar o que não pode­mos. Mas vamos con­ti­nu­ar, quem sabe des­co­bri­mos algu­ma coi­sa mais. Não cho­re. No fim tudo dá cer­to. Vamos lá, diga mais um núme­ro.

— Quin­ze.

Mãe Elza mur­mu­rou outra con­ta­gem fal­sa enquan­to seu dedo balan­ça­va sobre o leque de car­tas. Puxou uma delas para o cen­tro da mesa e a virou.

— Pare­ce que nada está escri­to ain­da! — O corin­ga era velho tru­que, usa­do até com sur­pre­en­den­te frequên­cia, e mãe Elza ain­da se admi­ra­va de como fun­ci­o­na­va, prin­ci­pal­men­te nos casos em que os cli­en­tes, ape­sar de se deba­te­rem na dúvi­da, já tinham o cami­nho tra­ça­do dali em dian­te. Ou quan­do, na ver­da­de, não tinham opções. Como diria seu pai, caso ele tives­se lhe dito algu­ma coi­sa um dia: “Se o futu­ro pode ser lido, não sabe­mos nem onde ele está escri­to. Des­ti­no? No fim é tudo boba­gem… se o futu­ro está escri­to em algum lugar, não é no des­ti­no, é nos cora­ções”.

— Corin­ga? Mãe, isso é bom ou é ruim?

Ela não mais cho­ra­va, mas o desam­pa­ro e a pali­dez em seu ros­to eram tris­tes de ver. E, se o futu­ro eram os cora­ções (bri­gan­do com o mun­do?, pai?), aque­le sofria ten­tan­do ser o que não era; e era um cora­ção hones­to, do tipo que mais sen­te dor.

— Nem um, nem outro, que­ri­da. A car­ta só mos­tra que no mapa de sua vida os cami­nhos estão aber­tos.

— Acho que estou sen­do idi­o­ta. Não sou mais ado­les­cen­te. Que boba­gem! — Ela enxu­ga­va os olhos com um len­ço de papel puxa­do de uma cai­xi­nha rosa reti­ra­da de sua bol­sa. — Vou dei­xar tudo isso para trás e con­ti­nu­ar com minha vida. Sou uma mulher casa­da, bem casa­da, meu mari­do é um homem bom, não mere­ce isso.

Ela se endi­rei­tou na pol­tro­na, bal­bu­ci­an­do dores, e mãe Elza de Ashi­ra notou que suas pupi­las se fixa­vam num pon­to aci­ma e à direi­ta, um sinal de men­ti­ra, se lem­brou de ter lido em algum dos livros que dizi­am tra­du­zir os ges­tos das pes­so­as. Ain­da segun­do o livro, tal méto­do para se ouvir a fala silen­ci­o­sa dos cor­pos era usa­do pela polí­cia duran­te inter­ro­ga­tó­ri­os, até pelo FBI. Tal­vez isso fos­se boba­gem; as pes­so­as não eram mon­ta­das com engre­na­gens e ala­van­cas, agin­do e rea­gin­do sem­pre do mes­mo modo. Mãe Elza con­fi­a­va mais na intui­ção. Se tives­se tido chan­ce na vida, se, ao invés de ter sido obri­ga­da a aban­do­nar aos qua­tor­ze anos a casa em que mora­va com a mãe sem­pre tão bêba­da e a avó sem­pre tão sur­da e bra­va e pudes­se ter esco­lhi­do uma pro­fis­são, seria psi­có­lo­ga. Mas era viden­te, e usa­va car­tas, búzi­os, bor­ra de café, bola de cris­tal como tru­ques para que seus cli­en­tes acre­di­tas­sem no que ela enxer­ga­va sem saber bem como. E o que via ago­ra do outro lado da mesa era uma mulher men­tin­do para si mes­ma e para ela, ten­tan­do fazê-las acre­di­tar que um casa­men­to frio como noi­te no deser­to era uma opção que se pudes­se dese­jar, pois não era pre­ci­so ser adi­vi­nha para saber que o mari­do era alguém dis­tan­te dela mes­mo dor­min­do na mes­ma cama. Se era de fato um homem bom, isso mãe Elza não tinha como saber.

A cli­en­te vol­ta­ra a cho­rar, a maqui­a­gem esta­va bor­ra­da. Os len­ços de papel tinham aca­ba­do e ela seca­va o ros­to na man­ga da blu­sa, amar­fa­nhan­do a seda.

— Vamos fazer o seguin­te — dis­se mãe Elza —, ele não pode vir aqui?

— Meu mari­do?

— Não! Ele.

— Ah, sim. Enten­di, des­cul­pe. Acho que pode. Isso vai aju­dar?

— Tal­vez sim, que­ri­da. Tal­vez sim. Quem sabe a gen­te pos­sa ilu­mi­nar um pou­co os cami­nhos. — Mãe Elza que­ria aju­dar, mas pen­sa­va tam­bém na infla­ção. A alta dos pre­ços che­ga­ra a dois dígi­tos per­cen­tu­ais no últi­mo ano. — Acho que você tam­bém pode­ria vir pelo menos mais uma vez depois. — O últi­mo mês havia sido difí­cil, e ela muda­ra o pla­no de TV a cabo para um mais caro.

Ao pagar, a cli­en­te fez ques­tão de dar gor­je­ta, recu­san­do-se a rece­ber o tro­co. Sem espe­rar que mãe Elza a acom­pa­nhas­se, ela se diri­giu à por­ta, que qua­se sem­pre fica­va aber­ta duran­te o dia. Ela parou antes de sair, uma mão apoi­a­da na maça­ne­ta, o sol lá fora dou­ran­do seu cabe­lo cas­ta­nho. Ela se virou para mãe Elza, que esta­va em pé ao lado da mesa.

— Mãe Elza?

— Sim, que­ri­da. Pode falar.

— Veja bem… Acho que não con­tei tudo. É que é dife­ren­te, sabe? Nem sei direi­to como tudo come­çou. Ela, ela é minha ami­ga, enten­de?

 

Mas uma vez mãe Elza pas­sou dos limi­tes.

Era outra tar­de de sol; uma cli­en­te aca­ba­ra de entrar. A mulher tra­ja­va panos que não se viam no bre­chó, tinha o ros­to ace­ti­na­do e cora­do por pós e cre­mes que se fixa­vam na pele sem bor­rar até o final do dia e os pés enfi­a­dos em sapa­tos de mar­ca com nome difí­cil de falar sem embo­lar a lín­gua. As ancas da mulher, de redon­de­za real­ça­da por um sai­o­te de cor ber­ran­te gru­da­do à cal­ça jus­ta, reque­bra­vam, suas cur­vas sara­co­te­an­do. Os olhos dela tinham uma opa­ci­da­de que bei­ra­va a idi­o­tia, vas­cu­lha­vam e jul­ga­vam com vul­ga­ri­da­de o mun­do que se lhes mos­tra­va infe­ri­or. Mãe Elza não gos­ta­ra dela des­de a pri­mei­ra vez em que a vira. Mas havia a infla­ção, a TV a cabo e, ago­ra, a peque­na refor­ma que fazia na casa.

— Aqui está — dis­se a mulher, lar­gan­do sobre a mesa, denun­ci­an­do sua rai­va ao fazer os búzi­os se agi­ta­rem na ces­ta ao lado, uma saco­la de papel par­do deco­ra­do com as duas letras de uma gri­fe baca­na repe­ti­das e ali­nha­das num padrão grá­fi­co dou­ra­do. Ela deu um pas­so atrás, apoi­ou as mãos nas ancas.

— Está bem, obri­ga­da — o cora­ção de mãe Elza batia rápi­do.

— Acho que fecha­mos negó­cio, não? — a idi­o­tia opa­ca da mulher ago­ra se mis­tu­ra­va a um bri­lho de ódio.

Mãe Elza não se mexeu. E não havia pala­vra que pudes­se dizer para sal­vá-la da ver­go­nha.

— Não vai con­fe­rir? — dis­se a mulher.

Não, mãe Elza não que­ria con­fe­rir. Só ansi­a­va por encer­rar a tran­sa­ção. Mas sen­tia-se ler­da, com os pen­sa­men­tos em atri­to, e o estô­ma­go, pesa­do, fora do lugar. Che­ga­ra até ali por impul­so ou refle­xão? Mas, pen­san­do bem, aque­la mulher, que se não moras­se numa cida­de peque­na teria uma fila de aman­tes que dobra­ria a esqui­na e iria além e que se fazia de dama filan­tro­pa em ações soci­ais para conhe­cer e agar­rar um ou outro rapaz per­di­do para levar para a cama, podia empi­nar o nariz como fazia e acu­sá-la?

— Está tudo aí, pode ver — insis­tiu a mulher.

Mãe Elza sabia que esta­va tudo ali. A mulher podia ser uma bes­ta, mas não lou­ca. Ago­ra o melhor a fazer era ter­mi­nar tudo. Afi­nal, a quem esta­ria pre­ju­di­can­do? A mulher con­ti­nu­a­ria depois por aí osten­tan­do as cur­vas e os vin­téns, saco­le­jan­do-se glu­to­na e agar­ran­do des­gra­ça­dos nas som­bras para, assim que lhes chu­pas­se a pol­pa até o caro­ço, os dei­xar sem se virar para trás. Ao mari­do dela tam­bém não fazia nada de mais. Mãe Elza sabia quem era ele pelo tan­to que dizi­am suas infor­man­tes da fei­ra, da pas­te­la­ria, do bair­ro, das lojas de 1,99, do bar. Era um almo­fa­di­nha, um dân­di gros­sei­ro com cara de otá­rio que já enve­re­da­va pela polí­ti­ca popu­lis­ta rumo à pre­fei­tu­ra da cida­de, onde aumen­ta­ria sua rique­za toman­do para si o quan­to con­se­guis­se car­re­gar do que era públi­co, um advo­ga­do cujo escri­tó­rio tinha como fon­te prin­ci­pal de lucro os gol­pes que dava em apo­sen­ta­dos, como um Midas que com seu toque trans­for­ma­va a inge­nui­da­de dos outros em ouro para si, pro­me­ten­do aos incau­tos velhi­nhos uma pro­vei­to­sa e legal revi­são de ren­di­men­tos via ape­la­ção à Jus­ti­ça e entre­gan­do-lhes ape­nas bole­tos em nome do escri­tó­rio; era tam­bém agi­o­ta, que, além de ame­a­çar os deve­do­res, tinha per­ver­si­da­de sufi­ci­en­te para cobrar dos neces­si­ta­dos juros ain­da mai­o­res do que os dos ban­cos.

Mãe Elza, sen­tin­do o ros­to esquen­tar pelo ata­que das chis­pas lan­ça­das pelos olhos infla­ma­dos da mulher e bus­can­do afas­tar o tre­mor que ame­a­ça­va suas mãos, puxou as late­rais da boca da saco­la e espi­ou den­tro. Esta­va tão ner­vo­sa que o fez por obri­ga­ção e não por des­con­fi­an­ça, e vaga­men­te lhe pare­ceu, sim, haver um paco­te no fun­do.

— Cer­to — dis­se ela —, está aí. Acho que não temos pro­ble­mas. Vou cum­prir minha par­te no acor­do.

— Espe­ro que sim — a mulher tinha a boca repu­xa­da para os can­tos e os bra­ços cru­za­dos à altu­ra do pei­to. Mais pare­cia um homem afron­tan­do outro. — Ago­ra, a sua par­te — exi­giu.

A afli­ção das últi­mas horas fora tan­ta, que mãe Elza se esque­ce­ra…

— Espe­re um pou­co, vou pegar…

Cor­reu para o quar­to, onde vas­cu­lhou as pra­te­lei­ras do guar­da-rou­pa, as gave­tas, embai­xo da cama. Foi à cozi­nha, andou alar­ma­da de um lado a outro. A um can­to da mesa, embai­xo da gar­ra­fa tér­mi­ca, esta­va o enve­lo­pe. Vol­tou à sala.

— Aqui está.

A mulher a aguar­da­ra como se fos­se de pedra, os bra­ços cru­za­dos, a boca repu­xa­da. Ao ver o enve­lo­pe ofe­re­ci­do, esten­di­do a sua fren­te, desar­mou a guar­da, sol­tou entre os den­tes o ar pre­so no pei­to.

— Nun­ca ima­gi­nei uma coi­sa des­sas — dis­se ela. — Não sei o que lhe deu. Fala­ram mui­to bem de você. O dinhei­ro não vai me fazer fal­ta, você sabe dis­so. Sei que erro por men­tir para meu mari­do, e não é de hoje, e você viu tudo direi­ti­nho nas car­tas. Você é mui­ta boa nis­so, uma viden­te de ver­da­de, tenho que admi­tir. Mas me seguir, tirar fotos? Eu podia cha­mar a polí­cia, o que você fez é chan­ta­gem.

Mãe Elza assen­tiu com a cabe­ça, depois com pala­vras sol­tas, des­co­la­das entre si, todas lan­ça­das trô­pe­gas pela boca seca, a coe­rên­cia a lhe fugir das idei­as:

— … não sei bem o quê. Tal­vez des­cul­pe, você, não faz fal­ta então — ter­mi­nou assim, por dizer, ao falar o que fos­se.

— Sei que essas fotos impres­sas não valem nada, que elas estão no seu celu­lar ou na sua máqui­na.

— Pode con­fi­ar, eu…

— Vou ter que con­fi­ar. O que me res­ta? Ape­sar de tudo, se meu mari­do des­co­bre, estou per­di­da.

A mulher guar­dou o enve­lo­pe na bol­sa estam­pa­da com as mes­mas letras da saco­la ain­da into­ca­da na mesa. Pare­cia tris­te ao ir embo­ra, os ombros cur­va­dos para bai­xo, o ros­to encres­pa­do com rugas que denun­ci­a­vam, sob a maqui­a­gem, a ida­de que real­men­te tinha. Antes de sair, parou do lado de den­tro da sala, apoi­a­va uma mão no baten­te. Desa­nu­vi­a­do da tris­te­za, seu ros­to tinha um qua­se sor­ri­so, um sor­ri­so um tan­to mal­do­so, como os que são com­par­ti­lha­dos entre cúm­pli­ces. E então mãe Elza ouviu a pri­mei­ra das duas ame­a­ças de mor­te que ouvi­ria na vida:

— Vou ter que con­fi­ar. Se alguém sou­ber de algu­ma coi­sa, ou se você vier pedir mais dinhei­ro, juro que pago alguém para dar uma lição em você. Ou fazer coi­sa pior.

Duran­te os dias seguin­tes, a saco­la mudou de um lugar para outro, indo da mesa da sala para trás das blu­sas de frio na últi­ma pra­te­lei­ra do guar­da-rou­pa. E mãe Elza, ten­do per­di­do a mai­or par­te de seu já frá­gil sono, vira­va-se na cama, fita­va o teto, a pare­de, a jane­la até dor­mir de exaus­tão. Deu de ir todas as noi­tes ao bar. Sua cons­ci­ên­cia só ficou mais leve quan­do ela doou um ter­ço do dinhei­ro para a Casa dos Bai­xi­nhos, onde gatos e cães aban­do­na­dos ou sem dono eram cui­da­dos. E de lá saiu com Piú­cha, uma cade­la vira-lata. E de noi­te, na cama com ela entre suas per­nas, o sono de mãe Elza foi vol­tan­do ao que era antes. Mas algo se reme­xia, pesa­do, no fun­do de sua men­te.

Numa madru­ga­da, sem que­rer empur­ran­do Piú­cha para o chão, acor­dou em meio a um pesa­de­lo no qual esta­va nua, sem achar em toda a casa uma peça de rou­pa que fos­se para se cobrir; na rua, uma mul­ti­dão cami­nha­va, gri­tan­do, can­tan­do em des­co­ne­xo e, pelo baru­lho, arras­tan­do os pés como zum­bis; ela não podia ver o que acon­te­cia lá fora, nenhu­ma jane­la abria; então tinham come­ça­do a bater na por­ta, pri­mei­ro, pelo som aba­fa­do, com as pal­mas das mãos, vári­as delas ao mes­mo tem­po, depois a esmur­ran­do. E foi então que, antes que der­ru­bas­sem a por­ta e entras­sem, esta­va acor­da­da, o cora­ção aos pulos. Lavou o ros­to com água fria no banhei­ro. Seus pen­sa­men­tos vol­ta­ram para o mun­do da vigí­lia e ela enfim lem­brou. Vol­tou para o quar­to e de cima do cri­a­do-mudo pegou o celu­lar, apa­gou as fotos, con­fe­riu segui­das vezes se elas tinham sido excluí­das da memó­ria do apa­re­lho. Só então seu cora­ção se acal­mou. Mas ain­da pre­ci­sou de um copo de vinho, de Piú­cha ani­nha­da em suas per­nas e da luz do aba­jur para vol­tar à cama e espe­rar que o sono vol­tas­se.

Na manhã seguin­te, o dia bri­lha­va deli­ca­do, nem frio, nem quen­te, ame­no. Era setem­bro, o inver­no e as fotos fica­ri­am para trás, nas pági­nas da folhi­nha pen­du­ra­da na pare­de e por­ven­tu­ra nos sonhos de mãe Elza. Ela, aliás, naque­la manhã já não era o que fora na ante­ri­or: tudo muda­va sem­pre, ins­tan­te após ins­tan­te, como no anti­go pen­sa­men­to sobre o rio que nun­ca é o mes­mo na segun­da vez em que nele se entra, e que tam­bém é uma his­tó­ria sobre as pes­so­as. O rio é só água que cor­re e que, por­tan­to, já é toda outra assim que bate o cora­ção; e o açú­car que mãe Elza boce­jan­do des­pe­ja­va no café com lei­te have­ria de ser mais doce e a man­tei­ga que pas­sa­va no pão mais gos­to­sa. A casa tam­bém muda­va aos pou­cos com a humil­de refor­ma que se tor­na­va orgu­lho­sa de si com o dinhei­ro da saco­la com letras dou­ra­das. Mãe Elza mor­deu o pão. Virou-se da pare­de para a jane­la. Lá fora um par­dal se sacu­diu espa­lhan­do pio­lhos e levan­tou voo do ema­ra­nha­do de fios da rua, bus­ca­ria uma nova vis­ta para seus olhi­nhos ansi­o­sos; devia ter pres­sa, a vida era cur­ta. De debai­xo da mesa, uma pata cutu­cou sua per­na para pedir um peda­ço de bolo. Ela par­tiu com a mão um naco de uma fatia já cor­ta­da.

— Toma, Piú­cha. O que você acha de azul bem cla­ri­nho? Fica­ria bem aqui nas pare­des, não acha?

 

Numa outra vez, não foi mãe Elza quem pas­sou dos limi­tes.

Ela esta­va no por­tão, ven­do Piú­cha dobrar a esqui­na depois de vas­cu­lhar com o foci­nho uma moi­ta. Piú­cha já fora cas­tra­da, o bair­ro era tran­qui­lo, com pou­cos car­ros nas ruas, e os cães da redon­de­za eram qua­se todos conhe­ci­dos dos mora­do­res, não haven­do, por­tan­to, nada de mais em às vezes sol­tá-la para pas­se­ar sozi­nha.

O homem veio do outro lado da rua, atra­ves­san­do-a com pas­sos lar­gos, pesa­dos, olha­va segui­da­men­te para os lados.

— Mãe Elza? — per­gun­tou, esten­den­do a mão.

Que­ria uma ses­são, con­tou. Um conhe­ci­do lhe fala­ra dela. Era de outra cida­de e esta­va de pas­sa­gem; par­ti­ria no dia seguin­te. Ape­sar da hora (as cal­ça­das esta­vam qua­se vazi­as e as vidra­ças das casas tre­me­lu­zi­am com as luzes urgen­tes do tele­jor­nal da noi­te), não seria pos­sí­vel ele vol­tar no dia seguin­te. E pedia o gran­de favor de uma con­sul­ta, mes­mo que rápi­da, pois na manhã seguin­te, antes de par­tir, tinha negó­cio impor­tan­te a resol­ver na região, coi­sa de alta soma e ris­cos. Pro­me­teu gor­je­ta, então subi­ram os pou­cos degraus da esca­da que dava na sala.

— Vamos con­sul­tar as car­tas — dis­se mãe Elza, de sua pol­tro­na empur­ran­do para um can­to a bola de cris­tal. Come­çou a emba­ra­lhar as car­tas; o homem se cala­ra, as mãos espal­ma­das na mesa. Ele era gran­de, de altu­ra e lar­gu­ra, de mas­sa e esque­le­to, as jun­tas boju­das. Na mão esquer­da lhe fal­ta­va a últi­ma falan­ge do dedo míni­mo. Tinha o cabe­lo engo­ma­do, bri­lho­so, de fios gros­sos, gru­da­dos e ajun­ta­dos para trás, a bar­ba bem fei­ta, a pele sem man­chas; mas, embo­ra mãe Elza não sou­bes­se dizer o porquê, havia algo no homem gran­de, pou­co ilu­mi­na­do pela peque­na lâm­pa­da do lus­tre de cone pen­du­ra­do por um fio ao teto, que lhe dava uma vaga ideia de alguém cuja sujei­ra não sai com água e sabão; era, estra­nho pen­sar sem moti­vo, um homem sujo de banho toma­do.

— Trin­ta e três — dis­se ele, em res­pos­ta ao pedi­do de que dis­ses­se um núme­ro.

Mãe Elza, com o dedo ergui­do e balan­çan­do, come­çou a mur­mu­rar a con­ta­gem far­ses­ca das car­tas espa­lha­das como leque na mesa.

— Estra­nho — inter­veio ele.

Ela parou o mur­mú­rio e o dedo, quis saber: — O que é estra­nho?

— Isso, de ficar con­tan­do as car­tas, assim espa­lha­das na mesa. Já fui em outras car­to­man­tes, e elas só me dão o bara­lho e pedem que eu repar­ta ele. Daí vão tiran­do as car­tas de cima do mon­te.

— Ah, sim. Esse é o méto­do mais comum, mas não o melhor, acho. Eu faço do jei­to que minha avó ensi­nou. Ela viveu com ciga­nos, e via­jou mui­to por aí, conhe­cia tudo sobre car­tas e me ensi­nou a ler o des­ti­no.

O homem pare­ceu con­tra­ri­a­do. Apoi­ou um coto­ve­lo na mesa, e o quei­xo, sobre a mão, que se abria sobre o lado do ros­to. Mãe Elza, antes de vol­tar à con­ta­gem, per­deu alguns segun­dos reti­da nas unhas do homem; eram, repa­rou, ama­re­len­tas e um pou­co mais com­pri­das do que de hábi­to dos homens, e, em suas pon­tas, abai­xo delas, havia sujei­ra escu­ra.

— Os ven­tos do des­ti­no sopram em vári­as dire­ções — dis­se ela mais para o corin­ga recém-vira­do para cima do que para o homem. — Mas vamos des­co­brir em que dire­ção eles sopram mais for­te. Você quer saber se faz o negó­cio? Ou saber se ele vai dar cer­to?

O homem se mos­trou mais uma vez con­tra­ri­a­do; enru­ga­va a tes­ta, tor­nou a mão à mesa. Não, expli­cou-lhe ele, o negó­cio seria fei­to, esta­va fecha­do. Envol­via boa soma, coi­sa gran­de. Mas nun­ca tinha fei­to nada do tipo. Já se mete­ra em negó­ci­os pare­ci­dos, mas todos meno­res, tra­ba­lhos peque­nos, só para sobre­vi­ver. E ago­ra sur­gi­ra essa opor­tu­ni­da­de, e ele esta­va ner­vo­so, pois envol­via ris­cos; que­ria saber se teria de fazer algo dife­ren­te para tudo dar cer­to, pois iria até o fim de qual­quer jei­to.

Mãe Elza ten­tou des­co­brir que espé­cie de tra­ba­lho seria; ele, con­tu­do, con­tou ape­nas que negó­ci­os de tal mon­ta e tipo eram man­ti­dos em segre­do até serem rea­li­za­dos, senão tudo daria erra­do. Seus par­cei­ros não sabi­am, e nem gos­ta­ri­am de saber, que ele esta­va con­ver­san­do com alguém a res­pei­to. Nem deve­ria estar na rua, lamen­tou-se, mas, sim, pre­pa­ran­do-se para as tan­tas tare­fas a serem fei­tas na manhã seguin­te. Antes de lhe pedir um núme­ro para nova con­ta­gem de car­tas, mãe Elza, enquan­to ele ain­da fala­va, obser­vou-lhe os den­tes. Eram gran­des, for­tes como ele, tão ali­nha­dos que os inci­si­vos não des­pon­ta­vam dos demais; nos vãos entre eles, man­chas espar­sas. Ele parou de falar, agi­ta­va-se, sua per­na balan­ça­va para cima e para bai­xo sob a mesa.

O rei de ouros era uma boa opção, e mãe Elza o esco­lheu; dei­tou-o, a figu­ra vira­da para cima, ao lado do corin­ga. — No mapa de sua vida — dis­se ela — mui­tos são os cami­nhos, mas o que você quer seguir pode­rá levar, sim, à far­tu­ra. As car­tas dizem que exis­te o ris­co, mas aque­le que enca­ra sem medo seu cami­nho tem mais chan­ces de des­vi­ar dos peri­gos.

— Eu que­ro saber se aí fala se vai dar cer­to. Vou fazer de qual­quer jei­to, mas, se as car­tas dis­se­rem que pode ter algum pro­ble­ma, já fico saben­do antes. E assim, antes que algu­ma coi­sa dê erra­do, já sei o que fazer, o que pre­ci­so fazer. Não pode­mos, não pos­so, errar. Vai dar cer­to, de um jei­to ou de outro, seja lá o que for que as car­tas dizem.

Seu tron­co balan­ça­va pela per­na ago­ra mais ner­vo­sa, e seu pei­to, assim sacu­di­do, agi­ta­va-se como o de um cão com a res­pi­ra­ção fre­né­ti­ca que por vezes eles têm quan­do dor­mem. Tinha os olhos bem aber­tos e para­dos, fixos em mãe Elza, e ela notou que os can­tos deles eram ama­re­la­ços, qua­se sépia, no tom de uma unha man­cha­da de nico­ti­na.

— Enten­do — con­cor­dou ela, na fal­ta de algo melhor a dizer. E per­gun­tou-lhe — mes­mo supon­do que isso o irri­ta­ria — um núme­ro.

— Dez.

Ela simu­lou nova con­ta­gem de car­tas. Não sabia qual delas esco­lher. Sua intui­ção, que mais tinha a ver com outra coi­sa do que com vidên­cia, pare­cia tê-la aban­do­na­do naque­la hora. Seu dedo parou no ar; o homem espe­ra­va, os olhos encar­di­dos ain­da fixos nela.

— Aqui está — dis­se mãe Elza. Era um dez de ouros. — Você dis­se dez, saiu um dez. E de ouros, assim como o rei.

— E então?

— Bem — ela ergueu uma mão para pedir um tem­po, pre­ci­sa­va pen­sar em como logo se livrar do homem —, o dez mos­tra o que é com­ple­to, nele não fal­ta nada… Jun­to ao rei, diz que ele vai ter tudo o que quer. E, veja bem, os dois são de ouros.

— Mas tem o corin­ga. Isso não quer dizer que não temos cer­te­za?

— Ah, sim… O corin­ga, cla­ro, o corin­ga. Sei o que dá a enten­der. Mas as car­tas se reve­lam com mis­té­rio, são como deus, escre­vem cer­to por linhas tor­tas. Não são como um lugar onde entra­mos e vemos tudo, elas são como a por­ta. O que está den­tro vemos com a alma. Por isso, com as car­tas, o que pare­ce ser às vezes não é. Vai dar tudo cer­to, fique tran­qui­lo. — Mãe Elza apoi­ou as mãos sobre a mesa e se incli­nou para fren­te, que­ren­do assim indu­zir o homem a se levan­tar.

— Aca­bou?

— Sim, sim, acho que está tudo cer­to. As car­tas têm seus segre­dos até para quem as conhe­ce, como eu. E são tam­bém um espe­lho da alma. Você, por exem­plo, é um homem deci­di­do, que sabe o que quer. Por isso pou­cas car­tas já mos­tram os cami­nhos. Como a ses­são foi rápi­da, nem pre­ci­sa se pre­o­cu­par, fica por con­ta da mãe Elza.

— Você está me enro­lan­do! — a mesa tre­meu com o tapa nas três car­tas. Ele man­te­ve a mão, aber­ta, sobre elas; mãe Elza se fixou por um ins­tan­te na pon­ta do dedo sem a últi­ma falan­ge. — Você é uma far­sa — con­ti­nu­ou ele —, uma men­ti­ra. Não sabe nada, não me enga­na. Acha que sou bes­ta? Conhe­ço car­to­man­tes no país todo, em tudo quan­to é can­to. Acha que sou como essas mulher­zi­nhas que vêm aqui, ou como os velhos idi­o­tas que acre­di­tam em qual­quer coi­sa, como nes­sa sua enga­na­ção, nes­sa sua pilan­tra­gem? Se você sabe ler o futu­ro, vamos ver se des­co­bre o que vai acon­te­cer ago­ra.

O homem se levan­ta. Dá pou­cos pas­sos e está do outro lado da mesa. Agar­ra o bra­ço de mãe Elza, puxa-a para cima. Seus olhos são ama­re­los, medem-na de cima a bai­xo.

— Você é seca mas é gos­to­sa.

Ele a puxa pelo bra­ço. Na penum­bra, joga-a no sofá da sala. Seu cor­po é enor­me, vem por cima dela.

— Nem pen­se em fazer baru­lho.

Seu chei­ro é de colô­nia de pinho e cer­ve­ja.

Lá fora, no por­tão, o lati­do rou­co de Piú­cha. A lín­gua do homem, quen­te, úmi­da, áspe­ra, entra no ouvi­do de mãe Elza. Piú­cha cha­ma­ria a aten­ção dos vizi­nhos. As mãos dele são for­tes, são mes­mo gar­ras, e estão ávi­das por vas­cu­lhar abai­xo do ves­ti­do. Mas Piú­cha, qua­se sem­pre que che­ga, late pou­co e espe­ra. Mãe Elza tan­ta esca­par. Piú­cha alon­ga o cor­po na cal­ça­da, apoia o foci­nho nas patas da fren­te, boce­ja.

Mãe Elza sen­te o peso e a dure­za da arma que o homem sujo traz à altu­ra dos qua­dris con­tra os seus.

 

A par­tir do dia seguin­te, na cida­de, um vídeo era vis­to e revis­to na inter­net, apre­sen­ta­do e repri­sa­do nos tele­jor­nais. Gra­va­do às escon­di­das da jane­la do pri­mei­ro andar de um pré­dio por um cine­gra­fis­ta ama­dor, mos­tra par­te da ação de um ban­do em um assal­to a ban­co. Qua­se toda a fil­ma­gem exi­be um homem na esqui­na; ele para o trân­si­to e man­têm as pes­so­as a dis­tân­cia ao apon­tar em vári­as dire­ções uma arma de cano lon­go, uma cara­bi­na pre­ta, enquan­to os com­par­sas agem den­tro da agên­cia. Depois de pou­co tem­po, os outros assal­tan­tes saem cor­ren­do do ban­co e o gru­po entra num car­ro e foge, pro­va­vel­men­te para fora da cida­de, comen­ta­va-se. Não dei­xa­ram pis­tas; o car­ro era rou­ba­do, todos ves­ti­am más­ca­ras, a ação fora bem pla­ne­ja­da, pre­ci­sa nos deta­lhes. A polí­cia e a popu­la­ção fica­ram admi­ra­dos, nun­ca havi­am vis­to algo assim, mais cine­ma que rea­li­da­de.

Mãe Elza tam­bém assis­tiu ao vídeo. Pri­mei­ro na TV, depois, vezes sem con­ta na inter­net. O homem que na esqui­na ame­a­ça­va o povo com a arma era bem gran­de e pare­cia peri­go­so, mas, pen­sou ela, mui­tos homens eram gran­des e peri­go­sos. Ele usa­va más­ca­ra, tal qual os demais ban­di­dos. Suas rou­pas tam­bém eram comuns e lar­gas no cor­po. Não havia nenhum sinal carac­te­rís­ti­co visí­vel que pudes­se aju­dar a iden­ti­fi­cá-lo. Ele ves­tia luvas que não dei­xa­ri­am digi­tais onde tocas­se, e os outros tam­bém as usa­vam, mas as dele, dife­ren­tes das demais, que eram cla­ras, apa­ren­te­men­te de mate­ri­al fino, eram pre­tas, gros­sas, e ser­vi­ri­am tam­bém para escon­der suas mãos. E para con­ter algum tipo de enchi­men­to, como algo­dão ou papel, na pon­ta de um dedo sem a últi­ma falan­ge.

Depois mãe Elza não quis mais saber do vídeo. E, como pelo menos até sex­ta-fei­ra ain­da con­ver­sa­vam sobre o assal­to, ela não saiu de casa no fim de sema­na. Na cama, ficou assis­tin­do a fil­mes anti­gos, Piú­cha a seu lado. O som esta­va alto, aba­fa­ria a voz que não vinha da TV, mas de sua cabe­ça; a voz era do homem para­do à por­ta antes de enfim sair de sua casa. Tal­vez naque­la hora, com o ros­to escon­di­do nas som­bras, ain­da a desa­fi­as­se com seus olhos ama­re­len­tos, sabo­re­a­ria o cri­me e o gozo. Tal­vez não. Mas com cer­te­za dis­se­ra:

— Se você con­tar algu­ma coi­sa por aí, man­do alguém para esta por­ca­ria de cida­de só para aca­bar com você.

 

Ape­sar de depois de tudo ten­tar man­ter as apa­rên­ci­as para os outros e para si mes­ma, mãe Elza aos pou­cos via os cli­en­tes sumi­rem. Não era mais a mes­ma; aten­dia com apa­tia e des­gos­to. Tinha medo, em espe­ci­al dos homens, que só entra­vam na casa se fos­sem conhe­ci­dos seus ou indi­ca­dos por alguém. Em alguns casos, nem assim. O que ago­ra man­ti­nha a casa e as con­tas em dia eram as eco­no­mi­as, que defi­nha­vam sem dó.

Ela pas­sou a se irri­tar com seus tru­ques. Dian­te dos cli­en­tes, a pers­pi­cá­cia dera lugar à angus­tia. Em alguns dias, não que­ria sair da cama e, sem se levan­tar de manhã, pega­va o tele­fo­ne do cri­a­do-mudo e can­ce­la­va horá­ri­os, pro­me­ten­do remar­cá-los. Não ia mais à pas­te­la­ria da Joa­na, nem ao bre­chó, nem ao bar. Saía qua­se só para ir ao mer­ca­do e à pada­ria. Às vezes con­se­guia levar Piú­cha para pas­se­ar na cal­ça­da da fren­te de casa; acha­va peri­go­so dei­xá-la sair sozi­nha.

Joa­na, sen­tin­do fal­ta da ami­ga, come­çou a visi­tá-la, car­re­gan­do pas­téis, refri­ge­ran­te e DVDs. Aos pou­cos foi fican­do mais e mais, até que, tam­bém por cau­sa da mudan­ça de seu filho para outra cida­de e da infla­ção, as duas pas­sa­ram a divi­dir a casa. Joa­na então fazia o que podia por mãe Elza; dei­xa­va café da manhã na mesa e almo­ço na gela­dei­ra antes de sair. Cer­to dia a con­ven­ceu a bus­car aju­da, e levou-a a um psi­qui­a­tra, o qual a aten­deu e indi­cou um psi­có­lo­go, e eles, cada qual com o que podia, tra­ta­ri­am de ambos, quí­mi­ca e cora­ção de mãe Elza.

Já devem ter dito que o futu­ro, vis­to do pre­sen­te, é ima­gi­na­ção e nada mais. Mas o pas­sa­do tam­bém pode sê-la. Mas este, o pas­sa­do, vai além de ima­gens, e se dis­ser­mos que ele não pas­sa de ima­gi­na­ção, além de nos apres­sar­mos, esta­re­mos fazen­do pou­co do que mais tor­na as pes­so­as o que são e o que virão a ser. Afi­nal o pas­sa­do se mos­tra em ima­gens mas pos­sui mais, pos­sui tex­to. E esse tex­to, que se acu­mu­la mis­tu­ran­do-se, não é regis­tra­do na cabe­ça, mas, sim, gra­va­do no cor­po. Gos­ta­ría­mos, tal­vez, de poder apa­gar ou alte­rar tre­chos ou obras com­ple­tas que estão em nós, o que pode­ria ser cha­ma­do de liber­da­de, mas que, sabe­mos bem, não acon­te­ce. E mãe Elza, jus­ta­men­te ela, artis­ta talen­to­sa (por vezes brin­can­do mes­mo com a ima­gi­na­ção para aju­dar outros a cri­ar fic­ções do futu­ro con­for­me suas von­ta­des e, por outro lado, tam­bém ten­ta­do adi­vi­nhar o que se pas­sa­va no pre­sen­te), era inca­paz de mudar o enre­do recém-escri­to em sua pele, onde o tex­to fora sul­ca­do níti­do, suas letras legí­veis, arra­nha­das com for­ça, vio­lên­cia e cri­me. Seria assim mar­ca­da para sem­pre, sabia bem. Por isso, mes­mo quan­do tran­ca­da em casa, fizes­se calor ou frio, cobria-se o quan­to podia com rou­pas; era como se a ver­go­nha que nela se lia fos­se tam­bém de sua auto­ria, de sua cul­pa. Mas o talen­to de mãe Elza para sobre­vi­ver, a aju­da dos pro­fis­si­o­nais da quí­mi­ca e do cora­ção e o amor de Joa­na have­ri­am de ser espe­ran­ça. E mãe Elza aos pou­cos foi se dan­do con­ta de que o tex­to nela mar­ca­do podia ser lido de outros modos. O tex­to, veja bem, era o mes­mo, não havia como mudá-lo. Mas outras inter­pre­ta­ções eram pos­sí­veis. Assim como qual­quer tex­to, como este con­to que você ago­ra lê, diz coi­sas dife­ren­tes para outras pes­so­as, a lei­tu­ra da vida (assim como dis­se mais ou menos Nabo­kov, e embo­ra sobre outro assun­to), a lei­tu­ra da vida de cada um não é ques­tão de gra­má­ti­ca, mas de arte.

E assim, cer­to dia, mãe Elza se levan­tou da cama logo de manhã. E escan­ca­rou a jane­la para o sol entrar. E a par­tir de então, mur­mu­rou a si mes­ma, que­ria uma vida dife­ren­te, quem sabe até mais hones­ta.

— E empre­go de quê? — per­gun­tou-lhe, pou­co depois, à mesa da cozi­nha, Joa­na, não sem espan­to e caçan­do com a lín­gua um peda­ço de cas­ca de laran­ja do bolo em sua boca.

— Qual­quer coi­sa. Sei que não tenho diplo­ma nem expe­ri­ên­cia. E que empre­go hoje em dia não é coi­sa fácil. Mas vou ten­tar assim mes­mo.

Lava­ram a pou­ca lou­ça do café, lim­pa­ram a mesa. Joa­na foi à pas­te­la­ria. Mãe Elza, na sala, ligou o com­pu­ta­dor. Na inter­net, espe­ci­a­lis­tas con­ta­vam os pas­sos lar­gos já dados pela reces­são e dizi­am saber o fôle­go que ain­da tinha o bicho para sua lon­ga cami­nha­da de mãos dadas com o mons­tro da infla­ção, que, famin­to e gor­do, comia da mesa do tra­ba­lha­dor. Além das pala­vras obs­cu­ras e dos grá­fi­cos colo­ri­dos dos espe­ci­a­lis­tas, um comen­ta­ris­ta lamen­ta­va que a mão que segu­ra a pita­da de gen­te rica é fecha­da, sobre a qual os pobres vivem des­de sem­pre fei­to legião de pul­gas amon­to­a­das. Num dos pou­cos sites de clas­si­fi­ca­dos da cida­de, abai­xo da cha­ma­da de uma maté­ria ates­tan­do as van­ta­gens da meri­to­cra­cia e o poder do mar­ke­ting pes­so­al e do network no suces­so pro­fis­si­o­nal, algu­mas vagas de empre­go para pes­so­as com expe­ri­ên­cia em funi­la­ria, faxi­na domés­ti­ca, cor­te de cabe­lo, pre­en­chi­men­to de pla­ni­lhas de con­ta­bi­li­da­de, capi­na­gem, pin­tu­ra de resi­dên­ci­as, ven­da de cos­mé­ti­cos, cozi­nha indus­tri­al.

— Con­cur­so públi­co? — per­gun­tou-lhe, à noi­te, à mesa da sala, Joa­na, ten­tan­do ser­rar com a faca o quei­jo der­re­ti­do que de seu peda­ço sus­pen­so pela espá­tu­la ain­da se agar­ra­va à piz­za.

— É, con­cur­so públi­co. Quem sabe. Tenho tem­po livre, pos­so ficar estu­dan­do o dia todo.

E assim fez mãe Joa­na, des­de manhã até o jan­tar.

 

E, de fato, qua­se um ano depois mãe Elza assu­miu o car­go. Qua­ren­ta horas sema­nais, féri­as, déci­mo ter­cei­ro salá­rio, vale refei­ção. E uma mesa, a sua fren­te, toma­da de cópi­as de docu­men­tos e pla­ni­lhas cujos dados eram lan­ça­dos com méto­do e aten­ção na intra­net do ser­vi­ço públi­co de saú­de, uma ati­vi­da­de, comen­ta­ra uma cole­ga, mais ade­qua­da a máqui­nas, com sis­te­ma ele­trô­ni­co cen­tral ao invés de ner­vo­so. O expe­di­en­te era roti­na cha­ta, mas a equi­pe sabia se diver­tir, dis­pa­ran­do entre si pia­das, mal­da­des e fofo­cas que ame­ni­za­vam a fri­e­za do sis­te­ma infor­ma­ti­za­do do ser­vi­ço públi­co de saú­de e aba­fa­va o asso­bio gor­go­le­jan­te do sis­te­ma de ar con­di­ci­o­na­do, que assim recla­ma­va a ver­ba para o con­ser­to. E a esta­bi­li­da­de finan­cei­ra, fato novo na vida de mãe Elza, fazia-lhe até que bem, arre­don­dan­do-lhe um pou­co as for­mas pon­ti­a­gu­das e coran­do-lhe o ros­to outro­ra tão páli­do, tor­nan­do-a mais boni­ta, comen­ta­va Joa­na. Soci­a­li­zar-se tam­bém, pois era coi­sa que dava gra­ça à alma e cor ao san­gue, acres­cen­ta­ra ela. O psi­có­lo­go fora outro a ver mudan­ças, afe­ri­das com tec­ni­ci­da­de e conhe­ci­men­to não sem sen­si­bi­li­da­de. Ele era gor­do, bexi­guen­to e qua­se bona­chão, o ros­to sim­pá­ti­co mas­ca­ra­do por espes­sa bar­ba para cobri-lo com uma cama­da de seri­e­da­de. Cer­ta tar­de, espar­ra­man­do-se na pol­tro­na, ele brin­ca­va com um lápis mor­di­do na pon­ta entre os dedos, e dis­se que mãe Elza, até então, sem­pre tive­ra rela­ções super­fi­ci­ais, evi­tan­do a inti­mi­da­de com os outros. Era medo, pon­tu­ou. Medo, cla­ro, de frus­tra­ções. E, man­ten­do as pes­so­as a cer­ta dis­tân­cia e ain­da poden­do-se afas­tar mais delas caso o medo aumen­tas­se, ela per­pe­tu­a­va a ilu­são do con­tro­le neces­sá­rio para se pro­te­ger de agres­sões emo­ci­o­nais iguais às que ela sofria quan­do peque­na. Sim, uma cri­an­ci­ce, aliás, infan­ti­li­da­de, acres­cen­tou ele ao item medo enquan­to batu­ca­va com a pon­ta do lápis no joe­lho da per­na cru­za­da. E os tru­ques com as car­tas, bem, os tru­ques eram outra ilu­são; com eles mãe Elza bus­ca­va incons­ci­en­te­men­te con­tro­lar a vida, como se pudes­se esco­lher o dia de ama­nhã ao virar para cima um vale­te ou um às. O psi­có­lo­go, depois de olhar dis­cre­ta­men­te para o reló­gio no can­ti­nho da mesa ao seu lado, fina­li­zou:

— Hoje à tar­de vou falar com o dou­tor Hen­rik. Acre­di­to que pode­mos parar com os medi­ca­men­tos.

 

Meses depois, sem os com­pri­mi­dos, que lhe rou­ba­vam par­te do ape­ti­te, e com a vida man­sa, mãe Elza, acos­tu­ma­da com seu per­fil fino e ossu­do, numa manhã, ao ava­li­ar seu refle­xo no espe­lho da por­ta do armá­rio, se sur­pre­en­deu com o tama­nho de sua bun­da. No dia seguin­te, para quei­mar calo­ri­as, inau­gu­rou o hábi­to de cami­nhar pelo par­que antes de ir ao tra­ba­lho. Nes­sas horas, o fres­cor dos ares do dia ain­da vir­gens da fuma­ça dos esca­pa­men­tos, tra­zen­do con­si­go um tan­to do viço, sabor e aro­ma da sei­va de euca­lip­tos, figuei­ras e jato­bás, o acon­che­go sen­su­al ofe­re­ci­do pelo Sol ain­da man­so e o can­to mati­nal da natu­re­za lhe ins­pi­ra­vam novos sonhos; esta­ria até mes­mo tran­qui­la, satis­fei­ta, pode­ria ela dizer aos pás­sa­ros. O ser­vi­ço ia bem, a pas­te­la­ria de Joa­na ganha­ra um fun­ci­o­ná­rio e duas mesas novas, a infla­ção per­dia fôle­go. E, sen­tin­do fal­ta de algo sem saber de fato o que, numa des­sas manhãs ela achou boa a ideia de incluir em sua roti­na o car­te­a­do das quar­tas-fei­ras no clu­be dos fun­ci­o­ná­ri­os públi­cos da cida­de.

Lá, a joga­ti­na era boa mes­mo logo depois do quin­to dia útil do mês, quan­do, dos bol­sos recém-reche­a­dos, notas graú­das eram pas­sa­das para o “cai­xa” da noi­te em silên­cio, clan­des­ti­nas em enve­lo­pes ofi­ci­ais ou den­tro de folhas de papel dobra­das, ou até entre pági­nas fei­to mar­ca­do­res de livros. A proi­bi­ção às apos­tas em dinhei­ro cons­ta­va sem rodei­os e em negri­to no esta­tu­to do clu­be.
Numa noi­te de um dezem­bro vemos cin­co joga­do­res do clu­be sen­ta­dos, a rode­a­rem a mesa do salão de jogos. Déci­mo ter­cei­ro salá­rio, luzes e per­fu­mes de fes­tas de fim de ano. Sobre o fel­tro ver­de, a um can­to da mesa, cer­ve­ja, vinho, refri­ge­ran­te, cas­ta­nhas e sal­ga­di­nhos de paco­te; ao cen­tro, as pilhas colo­ri­das de fichas da par­ti­da final do tor­neio de pôquer.

— Eu dobro — quem fala­ra fora o pro­cu­ra­dor da Vara da Infân­cia e Ado­les­cên­cia Augus­to Soa­res, o Guga. Em segui­da, evi­tan­do enca­rar os opo­nen­tes, pigar­re­ou, afrou­xou o nó da gra­va­ta e abriu o botão do cola­ri­nho para que seu pomo-de-adão tives­se livre trân­si­to ao subir e des­cer na gar­gan­ta seca.

Com suas fichas soma­das às apos­tas no cen­tro da mesa, as pilhas balan­ça­ram. Os com­pe­ti­do­res sus­ten­ta­ram o silên­cio que se seguiu; um deles, o Oli­vei­ra, do admi­nis­tra­ti­vo do setor de sane­a­men­to bási­co, se tives­se cola­ri­nho tam­bém o desa­bo­to­a­ria, e enfi­ou um dedo na gola da cami­se­ta para puxá-la e balan­çou a cabe­ça; anun­ci­ou sua saí­da.

O senhor Gus­mão, apo­sen­ta­do, rea­va­li­ou, car­ran­cu­do, seu jogo. Fechou o leque que tinha nas mãos e aban­do­nou as car­tas na mesa. Com vin­cos na tes­ta e um mur­mú­rio, levan­tou-se; ser­viu-se de cer­ve­ja.

— Eu cubro — mãe Elza sepa­rou seu mon­tan­te de fichas e o empur­rou para o cen­tro da mesa.

— Eu tam­bém — Juan, o por­tei­ro da tar­de, que, sen­do fun­ci­o­ná­rio do clu­be, era proi­bi­do de par­ti­ci­par de suas ati­vi­da­des soci­ais, somou às apos­tas a sua par­te e vol­tou a roer a unha.

Pela ordem, Cló­vis, escri­vão do dele­ga­do Vei­ga Neto, este em pé ao lado da mesa a espi­ar o des­fe­cho do cam­pe­o­na­to após sua eli­mi­na­ção nas semi­fi­nais, era o últi­mo a apos­tar. Pelo regu­la­men­to, Cló­vis, ou o Rato, como era conhe­ci­do na mesa de jogo pela seme­lhan­ça físi­ca com o bicho e por ser rápi­do, pres­tes a mor­der os incau­tos, os len­tos, e ain­da trai­ço­ei­ro, como se de sua toca, quan­do todos o acha­vam der­ro­ta­do, de repen­te tiras­se ases e reis, pode­ria man­ter a apos­ta ou aumen­tá-la. Ele coçou o bigo­de ralo.

— Tudo ou nada — anun­ci­ou, pis­can­do segui­da­men­te os olhi­nhos ver­me­lhos pelo vinho.

Guga puxou o nó da gra­va­ta para bai­xo; Juan mor­dia a pele da pon­ta de um dedo; mãe Elza, fixan­do-se em Cló­vis, sen­ta­do do outro lado da mesa, incli­nou-se para fren­te. Guga então tirou a gra­va­ta, ain­da com o nó, puxan­do-a pela cabe­ça, e a enfi­ou, embo­la­da, no bol­so da cami­sa; res­mun­gou, aban­do­nou de qual­quer jei­to as car­tas na mesa quan­do se levan­tou. Juan mor­dis­ca­va um peda­ço de pele arran­ca­da de seu dedo. Dizi­am nas esqui­nas do clu­be que ele esta­va ruim das per­nas, que devia a deus e ao dia­bo; e pare­cia mes­mo tris­te, mas sor­riu, um sor­ri­so ama­re­lo e duro, qua­se enca­bu­la­do como se tives­se cul­pa pela der­ro­ta; lar­gou suas car­tas, bei­jou um pin­gen­te que tra­zia pen­du­ra­do por uma cor­ren­te ao pes­co­ço e, empur­ran­do o cor­po para cima com as mãos na mesa, colo­cou-se em pé para, apoi­a­do no espal­dar da cadei­ra, assis­tir ao des­fe­cho da par­ti­da. Mãe Elza se recli­nou na cadei­ra; mor­deu uma cas­ta­nha.

— Fei­to, tudo ou nada — dis­se ela, admi­ran­do-se com as ore­lhas peque­nas e pelu­das do ago­ra úni­co adver­sá­rio res­tan­te, que, com suas peque­nas mãos rosa­das, emba­ra­lha­va no ar suas car­tas.

Cló­vis se jogou para trás na cadei­ra, seu ven­tre rubi­cun­do e flá­ci­do se pro­je­tou à fren­te; mor­dia segui­da­men­te o lábio infe­ri­or, expon­do par­te dos den­tes supe­ri­o­res ao rumi­nar os pen­sa­men­tos. Vol­tou a emba­ra­lhar no ar as car­tas do bara­lho que, naque­la noi­te, segun­do o rodí­zio de hábi­to no salão de jogos, era o que mãe Elza trou­xe­ra e que ele havia pou­co elo­gi­a­ra pela qua­li­da­de.

— Elza, vou falar uma coi­sa para você — dis­se ele, bai­xan­do suas car­tas à mesa —, eu não acre­di­to nes­sas coi­sas. Já me dis­se­ram que você, antes, era car­to­man­te, viden­te, coi­sa do tipo. Mas, olha, sou um homem de ciên­ci­as, não boto fé nes­sas cren­di­ces, nes­sas coi­sas do povo. Mas até pare­ce que você tem um pé no outro mun­do. Que­ria saber como você des­co­briu de novo que eu esta­va ble­fan­do.

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