— Vejo alguém novo em sua vida — disse mãe Elza de Ashira (que não era mãe de gente nem de santo; que na verdade se chamava Cleuza e mudara o nome, tirando-lhe algumas letras e trocando outras de lugar por questões de eufonia e marketing pessoal; e que tomara para si “Ashira” de um encontrado ao acaso dicionário de nomes judaicos para ocupar o lugar de “Aragão”, seu último nome, o qual melhor caberia a um homem, a um velho, imaginava, gordo e barbudo — mas agora, sim, “Ashira: rica, abastada, afortunada, endinheirada”, tal como constava no alto de uma das páginas iniciais do mal-cheiroso livreto embolorado à venda quase de graça entre antigos best-sellers na loja de roupas e coisas usadas ao lado da pastelaria da Joana, um bagunçado brechó onde perdia a noção do tempo remexendo vestidos aos montes e buscando retalhos de tecidos brilhantes para seus turbantes em cestos, além de cavoucar até o fundo o conteúdo de caixas de papelão à procura de correntes, redes, penduricalhos, anéis pintados de dourado e broches de ametista de resina plástica).
— Alguém novo… — disse a cliente, realçando com silêncio a languidez e as reticências, baixando os olhos úmidos como se assim enganasse mãe Elza de Ashira, que podia não saber nada ler nos reflexos de uma bola de cristal, mas decifrava como ninguém a sintaxe e a semântica no brilho dos olhos de uma mulher que, longe da inocência que alegava sua voz frágil de vítima, estava enfrentando perigos para satisfazer desejos borbulhantes como sopa no fogo. Assim, claro, o tal “alguém novo…” era personagem já presente naquela clássica história de adultério com prováveis cenas picantes de encontros tórridos num banco traseiro de carro, num quarto de hotel de segunda. A cliente era bonita, com pouco mais de trinta anos, calculava mãe Elza, e sua delicada sensualidade se podia imaginar através da saia insinuante e da blusa fina, e vice-versa; e quando ela, contrariada, pressionava os lábios, o arco de cupido de sua boca se curvava com graça e ameaça, as covinhas que por ali se arqueavam também. Ter belas mulheres como clientes chegava a irritar mãe Elza de Ashira; elas lhe tomavam o foco enquanto a visão dos negócios se embaçava, e a proximidade dos corpos, a meia-luz, os perfumes só pioravam tudo.
Mãe Elza se reclinou na poltrona. Abriu em leque na mesa, a sua frente, o baralho marcado, coisa comprada em loja de mágico. Pediu à cliente que dissesse um número.
— … trinta e três.
Com um dedo erguido sobre as cartas, mãe Elza mais uma vez fingiu sussurrar uma contagem. Em seguida, retirou uma das cartas e pousou-a, virada para cima, ao lado do ás de espadas que já estava no centro da mesa. Após um tanto de silêncio, durante o qual se maravilhou com o contraste entre a delicadeza da moça e a tensão com que ela mexia na aliança como se esta fosse uma porca girando em falso num parafuso, disse:
— Um valete de paus — e juntou as mãos como se rogasse aos oráculos das cartomantes. A cliente tinha os ombros tortos e uma sobrancelha erguida, uma reação, sabia bem mãe Elza, comum em quem se denunciava inconscientemente em flagrante delito. Diante de tal confissão involuntária de culpa por crime de lascívia adúltera, mãe Elza se autocongratulou em pensamento pela esperteza. — Esse alguém novo já está em sua vida… — acrescentou, juntando novamente as mãos, desta vez com os dedos cruzados, os cotovelos sobre a mesa, a cabeça baixa como se lhe pesassem os pensamentos.
— Ai, mãe Elza. Será que a senhora pode me ajudar? Eu não sei o que fazer. Estou tão perdida. — Ela quase chorava, o que dava àqueles olhos cor de mel uma doçura a mais, pensou mãe Elza, lembrando-se de uma música.
— Minha filha, será que podemos mesmo decidir ou escolher o que vamos fazer nesta vida? — disse ela com compaixão. Estendeu as mãos à frente, oferecendo-as para que a cliente nelas pousasse as suas. Acarinhou com suavidade, sem pressa, aquela pele macia, de mãos que com certeza não conheciam trabalho duro, doméstico, que deviam folhear revistas femininas e, quem sabe, romances açucarados que recontavam a história de como o amor transforma a vida. Depois, apenas para dizer alguma coisa, mentiu (pois nunca conhecera seu pai): — Meu pai dizia que o futuro é um sonho, e que achamos que no presente estamos acordados. Mas, na verdade, passamos a vida dormindo, meu bem.
— Mas… e as cartas? O que elas dizem? Eu quero parar com tudo mas não consigo. E se alguém já sabe de alguma coisa? — Ela recolheu as mãos, estava prestes a desmoronar.
— As cartas, minha filha, podem nos mostrar um tiquinho das coisas, da vida. É como se estivéssemos em um porão muito grande e escuro. E as cartas são como um fósforo. Ele logo apaga e ainda pode queimar nossos dedos se o seguramos por tempo demais, achando que poderemos saber, enxergar o que não podemos. Mas vamos continuar, quem sabe descobrimos alguma coisa mais. Não chore. No fim tudo dá certo. Vamos lá, diga mais um número.
— Quinze.
Mãe Elza murmurou outra contagem falsa enquanto seu dedo balançava sobre o leque de cartas. Puxou uma delas para o centro da mesa e a virou.
— Parece que nada está escrito ainda! — O coringa era velho truque, usado até com surpreendente frequência, e mãe Elza ainda se admirava de como funcionava, principalmente nos casos em que os clientes, apesar de se debaterem na dúvida, já tinham o caminho traçado dali em diante. Ou quando, na verdade, não tinham opções. Como diria seu pai, caso ele tivesse lhe dito alguma coisa um dia: “Se o futuro pode ser lido, não sabemos nem onde ele está escrito. Destino? No fim é tudo bobagem… se o futuro está escrito em algum lugar, não é no destino, é nos corações”.
— Coringa? Mãe, isso é bom ou é ruim?
Ela não mais chorava, mas o desamparo e a palidez em seu rosto eram tristes de ver. E, se o futuro eram os corações (brigando com o mundo?, pai?), aquele sofria tentando ser o que não era; e era um coração honesto, do tipo que mais sente dor.
— Nem um, nem outro, querida. A carta só mostra que no mapa de sua vida os caminhos estão abertos.
— Acho que estou sendo idiota. Não sou mais adolescente. Que bobagem! — Ela enxugava os olhos com um lenço de papel puxado de uma caixinha rosa retirada de sua bolsa. — Vou deixar tudo isso para trás e continuar com minha vida. Sou uma mulher casada, bem casada, meu marido é um homem bom, não merece isso.
Ela se endireitou na poltrona, balbuciando dores, e mãe Elza de Ashira notou que suas pupilas se fixavam num ponto acima e à direita, um sinal de mentira, se lembrou de ter lido em algum dos livros que diziam traduzir os gestos das pessoas. Ainda segundo o livro, tal método para se ouvir a fala silenciosa dos corpos era usado pela polícia durante interrogatórios, até pelo FBI. Talvez isso fosse bobagem; as pessoas não eram montadas com engrenagens e alavancas, agindo e reagindo sempre do mesmo modo. Mãe Elza confiava mais na intuição. Se tivesse tido chance na vida, se, ao invés de ter sido obrigada a abandonar aos quatorze anos a casa em que morava com a mãe sempre tão bêbada e a avó sempre tão surda e brava e pudesse ter escolhido uma profissão, seria psicóloga. Mas era vidente, e usava cartas, búzios, borra de café, bola de cristal como truques para que seus clientes acreditassem no que ela enxergava sem saber bem como. E o que via agora do outro lado da mesa era uma mulher mentindo para si mesma e para ela, tentando fazê-las acreditar que um casamento frio como noite no deserto era uma opção que se pudesse desejar, pois não era preciso ser adivinha para saber que o marido era alguém distante dela mesmo dormindo na mesma cama. Se era de fato um homem bom, isso mãe Elza não tinha como saber.
A cliente voltara a chorar, a maquiagem estava borrada. Os lenços de papel tinham acabado e ela secava o rosto na manga da blusa, amarfanhando a seda.
— Vamos fazer o seguinte — disse mãe Elza —, ele não pode vir aqui?
— Meu marido?
— Não! Ele.
— Ah, sim. Entendi, desculpe. Acho que pode. Isso vai ajudar?
— Talvez sim, querida. Talvez sim. Quem sabe a gente possa iluminar um pouco os caminhos. — Mãe Elza queria ajudar, mas pensava também na inflação. A alta dos preços chegara a dois dígitos percentuais no último ano. — Acho que você também poderia vir pelo menos mais uma vez depois. — O último mês havia sido difícil, e ela mudara o plano de TV a cabo para um mais caro.
Ao pagar, a cliente fez questão de dar gorjeta, recusando-se a receber o troco. Sem esperar que mãe Elza a acompanhasse, ela se dirigiu à porta, que quase sempre ficava aberta durante o dia. Ela parou antes de sair, uma mão apoiada na maçaneta, o sol lá fora dourando seu cabelo castanho. Ela se virou para mãe Elza, que estava em pé ao lado da mesa.
— Mãe Elza?
— Sim, querida. Pode falar.
— Veja bem… Acho que não contei tudo. É que é diferente, sabe? Nem sei direito como tudo começou. Ela, ela é minha amiga, entende?
Mas uma vez mãe Elza passou dos limites.
Era outra tarde de sol; uma cliente acabara de entrar. A mulher trajava panos que não se viam no brechó, tinha o rosto acetinado e corado por pós e cremes que se fixavam na pele sem borrar até o final do dia e os pés enfiados em sapatos de marca com nome difícil de falar sem embolar a língua. As ancas da mulher, de redondeza realçada por um saiote de cor berrante grudado à calça justa, requebravam, suas curvas saracoteando. Os olhos dela tinham uma opacidade que beirava a idiotia, vasculhavam e julgavam com vulgaridade o mundo que se lhes mostrava inferior. Mãe Elza não gostara dela desde a primeira vez em que a vira. Mas havia a inflação, a TV a cabo e, agora, a pequena reforma que fazia na casa.
— Aqui está — disse a mulher, largando sobre a mesa, denunciando sua raiva ao fazer os búzios se agitarem na cesta ao lado, uma sacola de papel pardo decorado com as duas letras de uma grife bacana repetidas e alinhadas num padrão gráfico dourado. Ela deu um passo atrás, apoiou as mãos nas ancas.
— Está bem, obrigada — o coração de mãe Elza batia rápido.
— Acho que fechamos negócio, não? — a idiotia opaca da mulher agora se misturava a um brilho de ódio.
Mãe Elza não se mexeu. E não havia palavra que pudesse dizer para salvá-la da vergonha.
— Não vai conferir? — disse a mulher.
Não, mãe Elza não queria conferir. Só ansiava por encerrar a transação. Mas sentia-se lerda, com os pensamentos em atrito, e o estômago, pesado, fora do lugar. Chegara até ali por impulso ou reflexão? Mas, pensando bem, aquela mulher, que se não morasse numa cidade pequena teria uma fila de amantes que dobraria a esquina e iria além e que se fazia de dama filantropa em ações sociais para conhecer e agarrar um ou outro rapaz perdido para levar para a cama, podia empinar o nariz como fazia e acusá-la?
— Está tudo aí, pode ver — insistiu a mulher.
Mãe Elza sabia que estava tudo ali. A mulher podia ser uma besta, mas não louca. Agora o melhor a fazer era terminar tudo. Afinal, a quem estaria prejudicando? A mulher continuaria depois por aí ostentando as curvas e os vinténs, sacolejando-se glutona e agarrando desgraçados nas sombras para, assim que lhes chupasse a polpa até o caroço, os deixar sem se virar para trás. Ao marido dela também não fazia nada de mais. Mãe Elza sabia quem era ele pelo tanto que diziam suas informantes da feira, da pastelaria, do bairro, das lojas de 1,99, do bar. Era um almofadinha, um dândi grosseiro com cara de otário que já enveredava pela política populista rumo à prefeitura da cidade, onde aumentaria sua riqueza tomando para si o quanto conseguisse carregar do que era público, um advogado cujo escritório tinha como fonte principal de lucro os golpes que dava em aposentados, como um Midas que com seu toque transformava a ingenuidade dos outros em ouro para si, prometendo aos incautos velhinhos uma proveitosa e legal revisão de rendimentos via apelação à Justiça e entregando-lhes apenas boletos em nome do escritório; era também agiota, que, além de ameaçar os devedores, tinha perversidade suficiente para cobrar dos necessitados juros ainda maiores do que os dos bancos.
Mãe Elza, sentindo o rosto esquentar pelo ataque das chispas lançadas pelos olhos inflamados da mulher e buscando afastar o tremor que ameaçava suas mãos, puxou as laterais da boca da sacola e espiou dentro. Estava tão nervosa que o fez por obrigação e não por desconfiança, e vagamente lhe pareceu, sim, haver um pacote no fundo.
— Certo — disse ela —, está aí. Acho que não temos problemas. Vou cumprir minha parte no acordo.
— Espero que sim — a mulher tinha a boca repuxada para os cantos e os braços cruzados à altura do peito. Mais parecia um homem afrontando outro. — Agora, a sua parte — exigiu.
A aflição das últimas horas fora tanta, que mãe Elza se esquecera…
— Espere um pouco, vou pegar…
Correu para o quarto, onde vasculhou as prateleiras do guarda-roupa, as gavetas, embaixo da cama. Foi à cozinha, andou alarmada de um lado a outro. A um canto da mesa, embaixo da garrafa térmica, estava o envelope. Voltou à sala.
— Aqui está.
A mulher a aguardara como se fosse de pedra, os braços cruzados, a boca repuxada. Ao ver o envelope oferecido, estendido a sua frente, desarmou a guarda, soltou entre os dentes o ar preso no peito.
— Nunca imaginei uma coisa dessas — disse ela. — Não sei o que lhe deu. Falaram muito bem de você. O dinheiro não vai me fazer falta, você sabe disso. Sei que erro por mentir para meu marido, e não é de hoje, e você viu tudo direitinho nas cartas. Você é muita boa nisso, uma vidente de verdade, tenho que admitir. Mas me seguir, tirar fotos? Eu podia chamar a polícia, o que você fez é chantagem.
Mãe Elza assentiu com a cabeça, depois com palavras soltas, descoladas entre si, todas lançadas trôpegas pela boca seca, a coerência a lhe fugir das ideias:
— … não sei bem o quê. Talvez desculpe, você, não faz falta então — terminou assim, por dizer, ao falar o que fosse.
— Sei que essas fotos impressas não valem nada, que elas estão no seu celular ou na sua máquina.
— Pode confiar, eu…
— Vou ter que confiar. O que me resta? Apesar de tudo, se meu marido descobre, estou perdida.
A mulher guardou o envelope na bolsa estampada com as mesmas letras da sacola ainda intocada na mesa. Parecia triste ao ir embora, os ombros curvados para baixo, o rosto encrespado com rugas que denunciavam, sob a maquiagem, a idade que realmente tinha. Antes de sair, parou do lado de dentro da sala, apoiava uma mão no batente. Desanuviado da tristeza, seu rosto tinha um quase sorriso, um sorriso um tanto maldoso, como os que são compartilhados entre cúmplices. E então mãe Elza ouviu a primeira das duas ameaças de morte que ouviria na vida:
— Vou ter que confiar. Se alguém souber de alguma coisa, ou se você vier pedir mais dinheiro, juro que pago alguém para dar uma lição em você. Ou fazer coisa pior.
Durante os dias seguintes, a sacola mudou de um lugar para outro, indo da mesa da sala para trás das blusas de frio na última prateleira do guarda-roupa. E mãe Elza, tendo perdido a maior parte de seu já frágil sono, virava-se na cama, fitava o teto, a parede, a janela até dormir de exaustão. Deu de ir todas as noites ao bar. Sua consciência só ficou mais leve quando ela doou um terço do dinheiro para a Casa dos Baixinhos, onde gatos e cães abandonados ou sem dono eram cuidados. E de lá saiu com Piúcha, uma cadela vira-lata. E de noite, na cama com ela entre suas pernas, o sono de mãe Elza foi voltando ao que era antes. Mas algo se remexia, pesado, no fundo de sua mente.
Numa madrugada, sem querer empurrando Piúcha para o chão, acordou em meio a um pesadelo no qual estava nua, sem achar em toda a casa uma peça de roupa que fosse para se cobrir; na rua, uma multidão caminhava, gritando, cantando em desconexo e, pelo barulho, arrastando os pés como zumbis; ela não podia ver o que acontecia lá fora, nenhuma janela abria; então tinham começado a bater na porta, primeiro, pelo som abafado, com as palmas das mãos, várias delas ao mesmo tempo, depois a esmurrando. E foi então que, antes que derrubassem a porta e entrassem, estava acordada, o coração aos pulos. Lavou o rosto com água fria no banheiro. Seus pensamentos voltaram para o mundo da vigília e ela enfim lembrou. Voltou para o quarto e de cima do criado-mudo pegou o celular, apagou as fotos, conferiu seguidas vezes se elas tinham sido excluídas da memória do aparelho. Só então seu coração se acalmou. Mas ainda precisou de um copo de vinho, de Piúcha aninhada em suas pernas e da luz do abajur para voltar à cama e esperar que o sono voltasse.
Na manhã seguinte, o dia brilhava delicado, nem frio, nem quente, ameno. Era setembro, o inverno e as fotos ficariam para trás, nas páginas da folhinha pendurada na parede e porventura nos sonhos de mãe Elza. Ela, aliás, naquela manhã já não era o que fora na anterior: tudo mudava sempre, instante após instante, como no antigo pensamento sobre o rio que nunca é o mesmo na segunda vez em que nele se entra, e que também é uma história sobre as pessoas. O rio é só água que corre e que, portanto, já é toda outra assim que bate o coração; e o açúcar que mãe Elza bocejando despejava no café com leite haveria de ser mais doce e a manteiga que passava no pão mais gostosa. A casa também mudava aos poucos com a humilde reforma que se tornava orgulhosa de si com o dinheiro da sacola com letras douradas. Mãe Elza mordeu o pão. Virou-se da parede para a janela. Lá fora um pardal se sacudiu espalhando piolhos e levantou voo do emaranhado de fios da rua, buscaria uma nova vista para seus olhinhos ansiosos; devia ter pressa, a vida era curta. De debaixo da mesa, uma pata cutucou sua perna para pedir um pedaço de bolo. Ela partiu com a mão um naco de uma fatia já cortada.
— Toma, Piúcha. O que você acha de azul bem clarinho? Ficaria bem aqui nas paredes, não acha?
Numa outra vez, não foi mãe Elza quem passou dos limites.
Ela estava no portão, vendo Piúcha dobrar a esquina depois de vasculhar com o focinho uma moita. Piúcha já fora castrada, o bairro era tranquilo, com poucos carros nas ruas, e os cães da redondeza eram quase todos conhecidos dos moradores, não havendo, portanto, nada de mais em às vezes soltá-la para passear sozinha.
O homem veio do outro lado da rua, atravessando-a com passos largos, pesados, olhava seguidamente para os lados.
— Mãe Elza? — perguntou, estendendo a mão.
Queria uma sessão, contou. Um conhecido lhe falara dela. Era de outra cidade e estava de passagem; partiria no dia seguinte. Apesar da hora (as calçadas estavam quase vazias e as vidraças das casas tremeluziam com as luzes urgentes do telejornal da noite), não seria possível ele voltar no dia seguinte. E pedia o grande favor de uma consulta, mesmo que rápida, pois na manhã seguinte, antes de partir, tinha negócio importante a resolver na região, coisa de alta soma e riscos. Prometeu gorjeta, então subiram os poucos degraus da escada que dava na sala.
— Vamos consultar as cartas — disse mãe Elza, de sua poltrona empurrando para um canto a bola de cristal. Começou a embaralhar as cartas; o homem se calara, as mãos espalmadas na mesa. Ele era grande, de altura e largura, de massa e esqueleto, as juntas bojudas. Na mão esquerda lhe faltava a última falange do dedo mínimo. Tinha o cabelo engomado, brilhoso, de fios grossos, grudados e ajuntados para trás, a barba bem feita, a pele sem manchas; mas, embora mãe Elza não soubesse dizer o porquê, havia algo no homem grande, pouco iluminado pela pequena lâmpada do lustre de cone pendurado por um fio ao teto, que lhe dava uma vaga ideia de alguém cuja sujeira não sai com água e sabão; era, estranho pensar sem motivo, um homem sujo de banho tomado.
— Trinta e três — disse ele, em resposta ao pedido de que dissesse um número.
Mãe Elza, com o dedo erguido e balançando, começou a murmurar a contagem farsesca das cartas espalhadas como leque na mesa.
— Estranho — interveio ele.
Ela parou o murmúrio e o dedo, quis saber: — O que é estranho?
— Isso, de ficar contando as cartas, assim espalhadas na mesa. Já fui em outras cartomantes, e elas só me dão o baralho e pedem que eu reparta ele. Daí vão tirando as cartas de cima do monte.
— Ah, sim. Esse é o método mais comum, mas não o melhor, acho. Eu faço do jeito que minha avó ensinou. Ela viveu com ciganos, e viajou muito por aí, conhecia tudo sobre cartas e me ensinou a ler o destino.
O homem pareceu contrariado. Apoiou um cotovelo na mesa, e o queixo, sobre a mão, que se abria sobre o lado do rosto. Mãe Elza, antes de voltar à contagem, perdeu alguns segundos retida nas unhas do homem; eram, reparou, amarelentas e um pouco mais compridas do que de hábito dos homens, e, em suas pontas, abaixo delas, havia sujeira escura.
— Os ventos do destino sopram em várias direções — disse ela mais para o coringa recém-virado para cima do que para o homem. — Mas vamos descobrir em que direção eles sopram mais forte. Você quer saber se faz o negócio? Ou saber se ele vai dar certo?
O homem se mostrou mais uma vez contrariado; enrugava a testa, tornou a mão à mesa. Não, explicou-lhe ele, o negócio seria feito, estava fechado. Envolvia boa soma, coisa grande. Mas nunca tinha feito nada do tipo. Já se metera em negócios parecidos, mas todos menores, trabalhos pequenos, só para sobreviver. E agora surgira essa oportunidade, e ele estava nervoso, pois envolvia riscos; queria saber se teria de fazer algo diferente para tudo dar certo, pois iria até o fim de qualquer jeito.
Mãe Elza tentou descobrir que espécie de trabalho seria; ele, contudo, contou apenas que negócios de tal monta e tipo eram mantidos em segredo até serem realizados, senão tudo daria errado. Seus parceiros não sabiam, e nem gostariam de saber, que ele estava conversando com alguém a respeito. Nem deveria estar na rua, lamentou-se, mas, sim, preparando-se para as tantas tarefas a serem feitas na manhã seguinte. Antes de lhe pedir um número para nova contagem de cartas, mãe Elza, enquanto ele ainda falava, observou-lhe os dentes. Eram grandes, fortes como ele, tão alinhados que os incisivos não despontavam dos demais; nos vãos entre eles, manchas esparsas. Ele parou de falar, agitava-se, sua perna balançava para cima e para baixo sob a mesa.
O rei de ouros era uma boa opção, e mãe Elza o escolheu; deitou-o, a figura virada para cima, ao lado do coringa. — No mapa de sua vida — disse ela — muitos são os caminhos, mas o que você quer seguir poderá levar, sim, à fartura. As cartas dizem que existe o risco, mas aquele que encara sem medo seu caminho tem mais chances de desviar dos perigos.
— Eu quero saber se aí fala se vai dar certo. Vou fazer de qualquer jeito, mas, se as cartas disserem que pode ter algum problema, já fico sabendo antes. E assim, antes que alguma coisa dê errado, já sei o que fazer, o que preciso fazer. Não podemos, não posso, errar. Vai dar certo, de um jeito ou de outro, seja lá o que for que as cartas dizem.
Seu tronco balançava pela perna agora mais nervosa, e seu peito, assim sacudido, agitava-se como o de um cão com a respiração frenética que por vezes eles têm quando dormem. Tinha os olhos bem abertos e parados, fixos em mãe Elza, e ela notou que os cantos deles eram amarelaços, quase sépia, no tom de uma unha manchada de nicotina.
— Entendo — concordou ela, na falta de algo melhor a dizer. E perguntou-lhe — mesmo supondo que isso o irritaria — um número.
— Dez.
Ela simulou nova contagem de cartas. Não sabia qual delas escolher. Sua intuição, que mais tinha a ver com outra coisa do que com vidência, parecia tê-la abandonado naquela hora. Seu dedo parou no ar; o homem esperava, os olhos encardidos ainda fixos nela.
— Aqui está — disse mãe Elza. Era um dez de ouros. — Você disse dez, saiu um dez. E de ouros, assim como o rei.
— E então?
— Bem — ela ergueu uma mão para pedir um tempo, precisava pensar em como logo se livrar do homem —, o dez mostra o que é completo, nele não falta nada… Junto ao rei, diz que ele vai ter tudo o que quer. E, veja bem, os dois são de ouros.
— Mas tem o coringa. Isso não quer dizer que não temos certeza?
— Ah, sim… O coringa, claro, o coringa. Sei o que dá a entender. Mas as cartas se revelam com mistério, são como deus, escrevem certo por linhas tortas. Não são como um lugar onde entramos e vemos tudo, elas são como a porta. O que está dentro vemos com a alma. Por isso, com as cartas, o que parece ser às vezes não é. Vai dar tudo certo, fique tranquilo. — Mãe Elza apoiou as mãos sobre a mesa e se inclinou para frente, querendo assim induzir o homem a se levantar.
— Acabou?
— Sim, sim, acho que está tudo certo. As cartas têm seus segredos até para quem as conhece, como eu. E são também um espelho da alma. Você, por exemplo, é um homem decidido, que sabe o que quer. Por isso poucas cartas já mostram os caminhos. Como a sessão foi rápida, nem precisa se preocupar, fica por conta da mãe Elza.
— Você está me enrolando! — a mesa tremeu com o tapa nas três cartas. Ele manteve a mão, aberta, sobre elas; mãe Elza se fixou por um instante na ponta do dedo sem a última falange. — Você é uma farsa — continuou ele —, uma mentira. Não sabe nada, não me engana. Acha que sou besta? Conheço cartomantes no país todo, em tudo quanto é canto. Acha que sou como essas mulherzinhas que vêm aqui, ou como os velhos idiotas que acreditam em qualquer coisa, como nessa sua enganação, nessa sua pilantragem? Se você sabe ler o futuro, vamos ver se descobre o que vai acontecer agora.
O homem se levanta. Dá poucos passos e está do outro lado da mesa. Agarra o braço de mãe Elza, puxa-a para cima. Seus olhos são amarelos, medem-na de cima a baixo.
— Você é seca mas é gostosa.
Ele a puxa pelo braço. Na penumbra, joga-a no sofá da sala. Seu corpo é enorme, vem por cima dela.
— Nem pense em fazer barulho.
Seu cheiro é de colônia de pinho e cerveja.
Lá fora, no portão, o latido rouco de Piúcha. A língua do homem, quente, úmida, áspera, entra no ouvido de mãe Elza. Piúcha chamaria a atenção dos vizinhos. As mãos dele são fortes, são mesmo garras, e estão ávidas por vasculhar abaixo do vestido. Mas Piúcha, quase sempre que chega, late pouco e espera. Mãe Elza tanta escapar. Piúcha alonga o corpo na calçada, apoia o focinho nas patas da frente, boceja.
Mãe Elza sente o peso e a dureza da arma que o homem sujo traz à altura dos quadris contra os seus.
A partir do dia seguinte, na cidade, um vídeo era visto e revisto na internet, apresentado e reprisado nos telejornais. Gravado às escondidas da janela do primeiro andar de um prédio por um cinegrafista amador, mostra parte da ação de um bando em um assalto a banco. Quase toda a filmagem exibe um homem na esquina; ele para o trânsito e mantêm as pessoas a distância ao apontar em várias direções uma arma de cano longo, uma carabina preta, enquanto os comparsas agem dentro da agência. Depois de pouco tempo, os outros assaltantes saem correndo do banco e o grupo entra num carro e foge, provavelmente para fora da cidade, comentava-se. Não deixaram pistas; o carro era roubado, todos vestiam máscaras, a ação fora bem planejada, precisa nos detalhes. A polícia e a população ficaram admirados, nunca haviam visto algo assim, mais cinema que realidade.
Mãe Elza também assistiu ao vídeo. Primeiro na TV, depois, vezes sem conta na internet. O homem que na esquina ameaçava o povo com a arma era bem grande e parecia perigoso, mas, pensou ela, muitos homens eram grandes e perigosos. Ele usava máscara, tal qual os demais bandidos. Suas roupas também eram comuns e largas no corpo. Não havia nenhum sinal característico visível que pudesse ajudar a identificá-lo. Ele vestia luvas que não deixariam digitais onde tocasse, e os outros também as usavam, mas as dele, diferentes das demais, que eram claras, aparentemente de material fino, eram pretas, grossas, e serviriam também para esconder suas mãos. E para conter algum tipo de enchimento, como algodão ou papel, na ponta de um dedo sem a última falange.
Depois mãe Elza não quis mais saber do vídeo. E, como pelo menos até sexta-feira ainda conversavam sobre o assalto, ela não saiu de casa no fim de semana. Na cama, ficou assistindo a filmes antigos, Piúcha a seu lado. O som estava alto, abafaria a voz que não vinha da TV, mas de sua cabeça; a voz era do homem parado à porta antes de enfim sair de sua casa. Talvez naquela hora, com o rosto escondido nas sombras, ainda a desafiasse com seus olhos amarelentos, saborearia o crime e o gozo. Talvez não. Mas com certeza dissera:
— Se você contar alguma coisa por aí, mando alguém para esta porcaria de cidade só para acabar com você.
Apesar de depois de tudo tentar manter as aparências para os outros e para si mesma, mãe Elza aos poucos via os clientes sumirem. Não era mais a mesma; atendia com apatia e desgosto. Tinha medo, em especial dos homens, que só entravam na casa se fossem conhecidos seus ou indicados por alguém. Em alguns casos, nem assim. O que agora mantinha a casa e as contas em dia eram as economias, que definhavam sem dó.
Ela passou a se irritar com seus truques. Diante dos clientes, a perspicácia dera lugar à angustia. Em alguns dias, não queria sair da cama e, sem se levantar de manhã, pegava o telefone do criado-mudo e cancelava horários, prometendo remarcá-los. Não ia mais à pastelaria da Joana, nem ao brechó, nem ao bar. Saía quase só para ir ao mercado e à padaria. Às vezes conseguia levar Piúcha para passear na calçada da frente de casa; achava perigoso deixá-la sair sozinha.
Joana, sentindo falta da amiga, começou a visitá-la, carregando pastéis, refrigerante e DVDs. Aos poucos foi ficando mais e mais, até que, também por causa da mudança de seu filho para outra cidade e da inflação, as duas passaram a dividir a casa. Joana então fazia o que podia por mãe Elza; deixava café da manhã na mesa e almoço na geladeira antes de sair. Certo dia a convenceu a buscar ajuda, e levou-a a um psiquiatra, o qual a atendeu e indicou um psicólogo, e eles, cada qual com o que podia, tratariam de ambos, química e coração de mãe Elza.
Já devem ter dito que o futuro, visto do presente, é imaginação e nada mais. Mas o passado também pode sê-la. Mas este, o passado, vai além de imagens, e se dissermos que ele não passa de imaginação, além de nos apressarmos, estaremos fazendo pouco do que mais torna as pessoas o que são e o que virão a ser. Afinal o passado se mostra em imagens mas possui mais, possui texto. E esse texto, que se acumula misturando-se, não é registrado na cabeça, mas, sim, gravado no corpo. Gostaríamos, talvez, de poder apagar ou alterar trechos ou obras completas que estão em nós, o que poderia ser chamado de liberdade, mas que, sabemos bem, não acontece. E mãe Elza, justamente ela, artista talentosa (por vezes brincando mesmo com a imaginação para ajudar outros a criar ficções do futuro conforme suas vontades e, por outro lado, também tentado adivinhar o que se passava no presente), era incapaz de mudar o enredo recém-escrito em sua pele, onde o texto fora sulcado nítido, suas letras legíveis, arranhadas com força, violência e crime. Seria assim marcada para sempre, sabia bem. Por isso, mesmo quando trancada em casa, fizesse calor ou frio, cobria-se o quanto podia com roupas; era como se a vergonha que nela se lia fosse também de sua autoria, de sua culpa. Mas o talento de mãe Elza para sobreviver, a ajuda dos profissionais da química e do coração e o amor de Joana haveriam de ser esperança. E mãe Elza aos poucos foi se dando conta de que o texto nela marcado podia ser lido de outros modos. O texto, veja bem, era o mesmo, não havia como mudá-lo. Mas outras interpretações eram possíveis. Assim como qualquer texto, como este conto que você agora lê, diz coisas diferentes para outras pessoas, a leitura da vida (assim como disse mais ou menos Nabokov, e embora sobre outro assunto), a leitura da vida de cada um não é questão de gramática, mas de arte.
E assim, certo dia, mãe Elza se levantou da cama logo de manhã. E escancarou a janela para o sol entrar. E a partir de então, murmurou a si mesma, queria uma vida diferente, quem sabe até mais honesta.
— E emprego de quê? — perguntou-lhe, pouco depois, à mesa da cozinha, Joana, não sem espanto e caçando com a língua um pedaço de casca de laranja do bolo em sua boca.
— Qualquer coisa. Sei que não tenho diploma nem experiência. E que emprego hoje em dia não é coisa fácil. Mas vou tentar assim mesmo.
Lavaram a pouca louça do café, limparam a mesa. Joana foi à pastelaria. Mãe Elza, na sala, ligou o computador. Na internet, especialistas contavam os passos largos já dados pela recessão e diziam saber o fôlego que ainda tinha o bicho para sua longa caminhada de mãos dadas com o monstro da inflação, que, faminto e gordo, comia da mesa do trabalhador. Além das palavras obscuras e dos gráficos coloridos dos especialistas, um comentarista lamentava que a mão que segura a pitada de gente rica é fechada, sobre a qual os pobres vivem desde sempre feito legião de pulgas amontoadas. Num dos poucos sites de classificados da cidade, abaixo da chamada de uma matéria atestando as vantagens da meritocracia e o poder do marketing pessoal e do network no sucesso profissional, algumas vagas de emprego para pessoas com experiência em funilaria, faxina doméstica, corte de cabelo, preenchimento de planilhas de contabilidade, capinagem, pintura de residências, venda de cosméticos, cozinha industrial.
— Concurso público? — perguntou-lhe, à noite, à mesa da sala, Joana, tentando serrar com a faca o queijo derretido que de seu pedaço suspenso pela espátula ainda se agarrava à pizza.
— É, concurso público. Quem sabe. Tenho tempo livre, posso ficar estudando o dia todo.
E assim fez mãe Joana, desde manhã até o jantar.
E, de fato, quase um ano depois mãe Elza assumiu o cargo. Quarenta horas semanais, férias, décimo terceiro salário, vale refeição. E uma mesa, a sua frente, tomada de cópias de documentos e planilhas cujos dados eram lançados com método e atenção na intranet do serviço público de saúde, uma atividade, comentara uma colega, mais adequada a máquinas, com sistema eletrônico central ao invés de nervoso. O expediente era rotina chata, mas a equipe sabia se divertir, disparando entre si piadas, maldades e fofocas que amenizavam a frieza do sistema informatizado do serviço público de saúde e abafava o assobio gorgolejante do sistema de ar condicionado, que assim reclamava a verba para o conserto. E a estabilidade financeira, fato novo na vida de mãe Elza, fazia-lhe até que bem, arredondando-lhe um pouco as formas pontiagudas e corando-lhe o rosto outrora tão pálido, tornando-a mais bonita, comentava Joana. Socializar-se também, pois era coisa que dava graça à alma e cor ao sangue, acrescentara ela. O psicólogo fora outro a ver mudanças, aferidas com tecnicidade e conhecimento não sem sensibilidade. Ele era gordo, bexiguento e quase bonachão, o rosto simpático mascarado por espessa barba para cobri-lo com uma camada de seriedade. Certa tarde, esparramando-se na poltrona, ele brincava com um lápis mordido na ponta entre os dedos, e disse que mãe Elza, até então, sempre tivera relações superficiais, evitando a intimidade com os outros. Era medo, pontuou. Medo, claro, de frustrações. E, mantendo as pessoas a certa distância e ainda podendo-se afastar mais delas caso o medo aumentasse, ela perpetuava a ilusão do controle necessário para se proteger de agressões emocionais iguais às que ela sofria quando pequena. Sim, uma criancice, aliás, infantilidade, acrescentou ele ao item medo enquanto batucava com a ponta do lápis no joelho da perna cruzada. E os truques com as cartas, bem, os truques eram outra ilusão; com eles mãe Elza buscava inconscientemente controlar a vida, como se pudesse escolher o dia de amanhã ao virar para cima um valete ou um às. O psicólogo, depois de olhar discretamente para o relógio no cantinho da mesa ao seu lado, finalizou:
— Hoje à tarde vou falar com o doutor Henrik. Acredito que podemos parar com os medicamentos.
Meses depois, sem os comprimidos, que lhe roubavam parte do apetite, e com a vida mansa, mãe Elza, acostumada com seu perfil fino e ossudo, numa manhã, ao avaliar seu reflexo no espelho da porta do armário, se surpreendeu com o tamanho de sua bunda. No dia seguinte, para queimar calorias, inaugurou o hábito de caminhar pelo parque antes de ir ao trabalho. Nessas horas, o frescor dos ares do dia ainda virgens da fumaça dos escapamentos, trazendo consigo um tanto do viço, sabor e aroma da seiva de eucaliptos, figueiras e jatobás, o aconchego sensual oferecido pelo Sol ainda manso e o canto matinal da natureza lhe inspiravam novos sonhos; estaria até mesmo tranquila, satisfeita, poderia ela dizer aos pássaros. O serviço ia bem, a pastelaria de Joana ganhara um funcionário e duas mesas novas, a inflação perdia fôlego. E, sentindo falta de algo sem saber de fato o que, numa dessas manhãs ela achou boa a ideia de incluir em sua rotina o carteado das quartas-feiras no clube dos funcionários públicos da cidade.
Lá, a jogatina era boa mesmo logo depois do quinto dia útil do mês, quando, dos bolsos recém-recheados, notas graúdas eram passadas para o “caixa” da noite em silêncio, clandestinas em envelopes oficiais ou dentro de folhas de papel dobradas, ou até entre páginas feito marcadores de livros. A proibição às apostas em dinheiro constava sem rodeios e em negrito no estatuto do clube.
Numa noite de um dezembro vemos cinco jogadores do clube sentados, a rodearem a mesa do salão de jogos. Décimo terceiro salário, luzes e perfumes de festas de fim de ano. Sobre o feltro verde, a um canto da mesa, cerveja, vinho, refrigerante, castanhas e salgadinhos de pacote; ao centro, as pilhas coloridas de fichas da partida final do torneio de pôquer.
— Eu dobro — quem falara fora o procurador da Vara da Infância e Adolescência Augusto Soares, o Guga. Em seguida, evitando encarar os oponentes, pigarreou, afrouxou o nó da gravata e abriu o botão do colarinho para que seu pomo-de-adão tivesse livre trânsito ao subir e descer na garganta seca.
Com suas fichas somadas às apostas no centro da mesa, as pilhas balançaram. Os competidores sustentaram o silêncio que se seguiu; um deles, o Oliveira, do administrativo do setor de saneamento básico, se tivesse colarinho também o desabotoaria, e enfiou um dedo na gola da camiseta para puxá-la e balançou a cabeça; anunciou sua saída.
O senhor Gusmão, aposentado, reavaliou, carrancudo, seu jogo. Fechou o leque que tinha nas mãos e abandonou as cartas na mesa. Com vincos na testa e um murmúrio, levantou-se; serviu-se de cerveja.
— Eu cubro — mãe Elza separou seu montante de fichas e o empurrou para o centro da mesa.
— Eu também — Juan, o porteiro da tarde, que, sendo funcionário do clube, era proibido de participar de suas atividades sociais, somou às apostas a sua parte e voltou a roer a unha.
Pela ordem, Clóvis, escrivão do delegado Veiga Neto, este em pé ao lado da mesa a espiar o desfecho do campeonato após sua eliminação nas semifinais, era o último a apostar. Pelo regulamento, Clóvis, ou o Rato, como era conhecido na mesa de jogo pela semelhança física com o bicho e por ser rápido, prestes a morder os incautos, os lentos, e ainda traiçoeiro, como se de sua toca, quando todos o achavam derrotado, de repente tirasse ases e reis, poderia manter a aposta ou aumentá-la. Ele coçou o bigode ralo.
— Tudo ou nada — anunciou, piscando seguidamente os olhinhos vermelhos pelo vinho.
Guga puxou o nó da gravata para baixo; Juan mordia a pele da ponta de um dedo; mãe Elza, fixando-se em Clóvis, sentado do outro lado da mesa, inclinou-se para frente. Guga então tirou a gravata, ainda com o nó, puxando-a pela cabeça, e a enfiou, embolada, no bolso da camisa; resmungou, abandonou de qualquer jeito as cartas na mesa quando se levantou. Juan mordiscava um pedaço de pele arrancada de seu dedo. Diziam nas esquinas do clube que ele estava ruim das pernas, que devia a deus e ao diabo; e parecia mesmo triste, mas sorriu, um sorriso amarelo e duro, quase encabulado como se tivesse culpa pela derrota; largou suas cartas, beijou um pingente que trazia pendurado por uma corrente ao pescoço e, empurrando o corpo para cima com as mãos na mesa, colocou-se em pé para, apoiado no espaldar da cadeira, assistir ao desfecho da partida. Mãe Elza se reclinou na cadeira; mordeu uma castanha.
— Feito, tudo ou nada — disse ela, admirando-se com as orelhas pequenas e peludas do agora único adversário restante, que, com suas pequenas mãos rosadas, embaralhava no ar suas cartas.
Clóvis se jogou para trás na cadeira, seu ventre rubicundo e flácido se projetou à frente; mordia seguidamente o lábio inferior, expondo parte dos dentes superiores ao ruminar os pensamentos. Voltou a embaralhar no ar as cartas do baralho que, naquela noite, segundo o rodízio de hábito no salão de jogos, era o que mãe Elza trouxera e que ele havia pouco elogiara pela qualidade.
— Elza, vou falar uma coisa para você — disse ele, baixando suas cartas à mesa —, eu não acredito nessas coisas. Já me disseram que você, antes, era cartomante, vidente, coisa do tipo. Mas, olha, sou um homem de ciências, não boto fé nessas crendices, nessas coisas do povo. Mas até parece que você tem um pé no outro mundo. Queria saber como você descobriu de novo que eu estava blefando.
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